Prazeres da mesa

Faces da Trebbiano

Entenda as características comuns às muitas variedades incluídas nessa tipologia originária da região central da Itália

Por: | 29.apr.2013

São muitas as variedades inclusas na grande família da tipologia Treb- biano, como a Trebbiano di Soave (também conhecida como Trebbiano di Lugana), Trebbiano Modenese, Trebbiano di Romagna, Trebbiano Toscano, Trebbiano Spoletino, Trebbiano d’Aprilia, Trebbiano d’Abruzzo. A conotação geográfica identifica as áreas de origem, que estão concentradas na região central da Itália, devido ao clima geralmente ameno e temperado, ideal para a correta maturação dessas uvas.
É difícil delinear as características comuns a todos os tipos de Trebbiano, dada a grande variedade de clones existentes, e a grande difusão geográfica, mas dentro do território italiano podemos focar algumas das expressões mais importantes. O varietal Trebbiano, na história da enologia contemporânea, foi muitas vezes maltratado e injustamente acusado de produzir vinhos fracos, magros e bastante impessoais. Semelhante ao ocorrido a outros varietais, essa desvalorização da imagem foi causada por excessos produtivos e métodos de produção superficiais empregados no passado.
O Trebbiano Romagnolo é talvez o ponto mais perverso. Todavia mostrou-se que, quando há uma meticulosa dedicação ao vinhedo e implementando-se práticas apropriadas a cantina, seus vinhos resultantes podem ser extremamente interessantes. Representando uma nova geração de enólogos, mais atentos à qualidade, cito a vinícola Umberto Cesari que produz um Trebbiano di Romagna de grande limpeza, de delicados aromas florais e frescos toques condensados.
Nos territórios que englobam as localidades de Desenzano, Lonato, Sirmione, Pozzolengo e Peschiera del Garda, pertencentes às províncias de Bréscia e de Verona, em uma interseção entre a Lombardia e o Veneto, se desenvolve o Lugana DOC. O Trebbiano di Lugana tem conseguido ganhar nos últimos anos particular expressividade e espessura, revelando-se versátil. A Azienda Agricola Provenza trabalha com esse propósito, com Lugana DOC profundos e encorpados como, por exemplo, o Fabio Contado, de intenso perfil olfativo e de paladar fresco e sápido.
O Trebbiano Toscano, então historicamente usado na composição do Chianti (embora hoje alguns poucos enólogos o utilizem nessa particular composição), gera vinhos agradáveis e geralmente bastante neutros, que combinam bem com as variedades aromáticas. No caso do Vin Santo Toscano, no entanto, a secagem das uvas sobre esteiras enriquece a textura, enquanto a presença da Malvasia amplia o espectro olfativo e confere elegância e complexidade a esse extraordinário vinho doce. Vin Santo del Chianti Classico, da vinícola “Badia a Coltibuono” é bom exemplo.
Enfim, não podemos certamente esquecer os resultados obtidos da DOC Trebbiano d’Abruzzo, presente em todas as quatro províncias da região: L’Aquila, Chieti, Pescara e Teramo. A clarividência de alguns produtores, cito antes de todos o bravo Edoardo Valentini, que trouxe a atenção aos vinhos que possuem uma classe insuspeitável, intensamente sápidos e de longa persistência gustativa.
Versátil e expressivo, o Trebbiano constitui um exemplo de sucesso de como a viticultura de qualidade pode desfazer estereótipos e preconceitos antigos. Cada variedade, em cada uma de suas expressões, pode recortar espaços importantes no cenário produtivo internacional. A seguir, algumas notas de degustações.
 
• Lugana DOC “Fabio Contato” 2010 – Az. Agr. Provenza, 91 pontos
Amarelo intenso e luminoso, com reflexos azeite de oliva. Nariz amplo e intenso, chamadas florais de acácia e lavanda, notas frutadas de manga e abacaxi seco, e leves sobretons amanteigados. Final com chamada de coentro e toque balsâmico. Na boca, é rico e envolvente com fruto polpudo e macio e final amendoado e sápido.
 
• Trebbiano d’Abruzzo DOC 2009-Valentini, 99 pontos
Vestido dourado verde brilhante. O buquê olfativo oferece notas de pêssego branco e limão, pimenta-branca, erva-doce selvagem de Marselha. A oxigenação deixa emergir perfume de alcaparras secas, flores de pêssego e amêndoas frescas. Boca redonda de grande sapidez com notas cítricas e erva-cidreira, final persistente.
 
• Trebbiano di Romagna DOC 2011-Umberto Cesari, 89 pontos
Amarelo-palha intenso, ao olfato oferece aromas em evolução em que é possível reconhecer pera kaiser e alecrim. Na segunda análise, distingue-se a oliva verde e o almíscar com notas de flores de pêssego no final. O gosto decidido e sápido, o fruto condensado emerge com uma prazerosa veia ácida e final ligeiramente amargo.
 
• Vin Santo del Chianti Classico DOC 2006-Badia a Coltibuono, 94 pontos
Grande luminosidade na cor ouro antigo com reflexos de mogno. Amplo e complexo ao olfato, oferece perfumes de figos, amendoim e tabaco com nuances de iodo e de caramelo cozido. Ao se oxigenar afloram lembranças de panforte e torrone, com final de alfarroba. Gosto pleno e profundo com retrogosto de frutas cristalizadas e amêndoa torrada, sápido e persistente.

* Luca Gardini foi eleito o melhor sommelier do mundo em 2010 pela Worldwide Sommelier Association.

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*Foi eleito o melhor sommelier do mundo em 2010 pela Worldwide Sommelier Association

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