Prazeres da mesa

Firmamento chileno

Uvas como Sauvignon Blanc, Syrah, Cabernet Franc e Pinot Noir brilham cada vez mais e mostram a diversidade do país

Por: | 29.apr.2013

Depois de ganhar fama pelos Cabernet Sauvignon, a cepa tradicionalmente por trás dos melhores goles do país e de seus primeiros ícones, os chilenos vêm ampliando sem pausa, e com muito sucesso, o leque de variedades que militam em seu time etílico de ponta. 
Primeiro, começaram a chamar atenção com os Sauvignon Blanc, hoje com exemplares que nada devem a seus similares neozelandeses que até pouco tempo brilhavam solitários no Hemisfério Sul. Depois, com os Syrah (agora, base de alguns tremendos rubros andinos, como o Montes Folly ou o Pangea da Ventisqueiro), com um número crescente de belos Pinot Noir e, mais recentemente, com saborosos Malbec e Cabernet Franc, de vales como Casablanca ou Maule, que podem se transformar na próxima bola da vez.
A Ribera del Lago, uma das adegas que têm impressionado ultimamente pelo trabalho com algumas dessas cepas, está precisamente em Maule, 250 quilômetros ao sul de Santiago. Ela pertence ao enólogo Rafael Tirado (ex-Terranoble, ex-Veramonte), a quem conheci em 2010 durante uma visita à Via Wines, onde ele era, na época, enólogo-chefe (talhando um belo portfólio de vinhos).
Para minha surpresa, encontrei-o novamente um par de dias depois, durante um encontro de  produtores locais em Altos de Santa Rita, uma linda finca com uma vista espetacular do encontro dos rios Maule e Loncomilla. Lá estava ele, dessa vez detrás de uma minúscula mesinha apresentando um vinho de sua própria vinícola (com cerca de 10 hectares de vinhas), localizada em Colbún, no leste da região, ao pé dos Andes: o Laberinto 2007, um Sauvignon Blanc intenso, denso em boca, surpreendentemente vivaz, mesmo com 3 anos de idade, complexo e estruturado, com muita fruta, um dos grandes brancos daquela viagem.
A edição 2011 do Sauvignon Blanc, o Laberinto Cenizas de Barlovento, que aportou por aqui, não fica atrás. Amplo e potente (frutas cítricas e brancas, aspargos, toques minerais, leve baunilha), tem paladar vibrante e persistente.
Na ala dos tintos está o Laberinto Pinot Noir 2010. Vinificado (com 1/3 das uvas sem desengaçar, com cachos inteiros) em lagares de cimento, passou 12 meses em barricas francesas usadas. Ele tem um estilo que pende para a Borgonha, atraente, mesclando fruta típica da cepa com suaves tons tostados e de especiaria que marcam um final longo (ambos 91/100, R$ 99).
Outra vinícola que lida bem com essas uvas em alta (e tem um amplo portfólio delas assinado pelo enólogo francês Cédric Nicolle) é a Loma Larga, de Casablanca. Vale a pena conferir seus Lomas del Valle, uma linha com tintos sem contato com madeira, bons no copo e no bolso, como o Pinot Noir 2011(muito frutado, com boa tipicidade, untuoso e persistente, 89/100, R$ 69) ou três 2010: um Malbec (intenso, atraente, ameixas pretas maduras, especiaria, boa textura e deliciosa acidez, 90/100, R$ 80), um Syrah, não podia faltar um, claro (frutas vermelhas, tons defumados e de bacon, denso e persistente, 90/100, R$ 79), e um Cabernet Franc com taninos finos, corpo médio e paladar agradável, que mescla framboesas e ervas aromáticas (89/100, R$ 79). Todos na Vino!
Aliás, falando de Cabernet Franc, impossível omitir a Garage Wine Company, como o nome sugere, uma pequena vinícola de Alto Maipo do canadense Derek Mossman, também autor dos vinhos. A casa ocupou espaço nesta coluna pouco tempo atrás com o Lot #27, um delicioso Carignan (outra variedade para ficar de olho) de Maule, destaque de uma recente apresentação de adegas chilenas em São Paulo.
Volta à tona agora pelo seu Lot #17, um Cabernet Franc 2009, sedoso e instigante, dominado por frutas vermelhas, bem temperadas por tons tostados, de tabaco, suave chocolate e eucalipto, que dão forma a um sabor sedutor que perdura por muito tempo em boca, sem dúvida um dos melhores Cabernet Franc chilenos que tenho provado (92/100, R$ 103,62, Premium).

* Jorge Carrara escreve também para o site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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