Prazeres da mesa

FIZ SORVETE PARA VOCÊ

Por: Prazeres Da Mesa | 6.feb.2017

Você tem um ídolo? Com o passar da vida e dos anos, a tendência é abandonar as idolatrias. Mas alguns ídolos não caem; são totens, permanecem em nossas vidas pelo que, um dia, representaram.Eu preservo os meus e essa história envolve um ídolo, um que cozinhou para mim.

Lá no comecinho dos anos 1980 eu estreava no jornalismo. Não tinha as pautas de economia não me interessavam, política partidária nem pensar, relações internacionais também não eram a minha praia… Meu caminho apontou para a vida nossa de cada dia, a economia que mexe no nosso bolso, a política dentro de nossas relações pessoais, as modas, os pratos, a beleza das mulheres. Assim, fui trabalhar em revistas femininas.

Claudia, à época a maior de todas as publicações destinadas às mulheres, foi a revista que me contratou como repórter. Lá trabalhavam celebridades do jornalismo de quem eu lia e relia os artigos: a best-seller Lya Luft (que anos mais tarde se transformou em uma amiga querida), a psicanalista Lidia Aratangy (com quem vim a apresentar um programa no rádio três décadas depois), a brilhante escritora etíope Marina Colasanti (que tive a chance de contratar para compor a equipe de uma publicação que dirigi) e, para mim, a favorita, aquela que escrevia tudo que eu apreciava ler, a jornalista Ligia Martins de Almeida.

Ligia era feminista daqueles tempos em que o movimento não deixava dúvida nas suas intenções. Antes mesmo que as coisas acontecessem, ela farejava e escrevia sobre direitos da mulher, era veloz, brilhante nos pensamentos, uma editora de mão cheia. E, para minha felicidade, me “adotou”. Possível que tenha enxergado em mim uma aluna atenta, uma novata disposta a aprender e cooperar – não sei, ela nunca me disse. Tive a sorte de trabalhar com a Ligia ao longo de uma década quando, então, nossos caminhos tomaram rumos diferentes, mas nunca perdemos o contato.

Há algumas semanas – embebida pelo clima de decisões de ano novo – fui ver a Ligia em Águas de São Pedro, cidadezinha turística no noroeste de São Paulo. Entre abraços de saudade, a bagunça dos gatos e dos cachorros que convivem com ela e o Marão (também jornalista mas, acima disso, seu amado companheiro), nos sentamos à mesa para jantar. Não sei quanto tempo Ligia gastou nos preparos; só para a massa, ela fez dois molhos elaborados, um de frutos do mar e outro de queijo gorgonzola. Mas as pérolas vieram ao final da refeição. Eu, que nem sabia dos dotes culinários da Ligia, me derreti de carinho. Do pomarzinho atrás da casa, ela colheu as goiabas, as mangas e os limões. Com as frutas, fez três sorvetes que – se eu conheço bem minha amiga – ela bateu muitas vezes para não correr o risco de endurecerem.

01/12

Fomos madrugada adentro – eu, ela, o Marão, a minha madrinha Suely (dela eu falo em um outro dia, porque merece muito que eu conte uma história só sua), os gatos e os cachorros. Sempre soube que a Ligia gostava de mim, mas não sabia que era tanto. Só quem ama muito, meio como alma gêmea, meio como filho (que são os maiores amores do mundo) se dedica como a Ligia fez com seus sorvetes. É simples o que eu vou dizer, chega a ser óbvio até. Mas é verdade “de roça e de vida”: pra quem ama não basta dizer, tem que mostrar… e dar de comer.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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