Prazeres da mesa

Franceses ao alcance

Tintos de Bordeaux menos famosos estão fazendo bonito pela qualidade e pelo melhor preço

Por: Prazeres Da Mesa | 2.dec.2009

(*) POR JORGE CARRARA

Mesmo não sendo necessariamente baratos, vinhos que mostram performance (e dão prazer) acima de outros mais caros, famosos ou considerados superiores nos deixam felizes. Um dos membros desse time que primeiro ficou na minha memória foi um Bordeaux: o Château Talbot, que ocupa o quarto degrau (é um 4ème Cru Classé) da classificação oficial da elite do Médoc, oeste da região. Ele nasce em Saint-Julien, numa propriedade com cerca de 100 hectares de Cabernet Sauvignon (66%), Merlot (26%) e Petit Verdot, que dão origem a tintos que, em degustações de que participei nas últimas décadas, têm ficado a mínimos pontos atrás de gigantes como o Mouton ou o Latour (dois 1er Cru) ou têm levado à lona grandes nomes.

Em julho, o Talbot 2001, elegante e complexo, venceu uma prova (às cegas, como todas as mencionadas) deixando atrás dois 2ème Cru: Gruaud-Larose e Léoville-Las Cases. Difícil achar hoje o 2001 por aqui, mas, para quem queira conferir um dos Talbot no mercado, o 2004 pode ser uma boa pedida. Novo ainda, após alguns minutos no copo, ele exibe groselhas e figos frescos bem casados com madeira sutil, que aparece como suave caramelo e baunilha (90/100, US$ 149,90, Mistral).

Apesar de não ter entrado no palco tantas vezes, outro Bordeaux tem chamado atenção pelos mesmos motivos: o Clos Fourtet. Fourtet é oriundo de Saint-Émilion, no leste, e sua área de vinhedos é menor, 20 hectares, onde predomina a Merlot, estrela desse canto da região. Tal como Talbot, ele pertence ao clube de goles de ponta do lugar, com o título de 1er Grand Cru Classé B, segundo em importância na classificação do Saint Émilion. No topo estão os 1er Grand Cru Classé A (Cheval Blanc e Ausone) e no terceiro escalão os Grand Cru Classé.

Os Fourtet que provei foram posteriores a 2001, ano em que o Clos foi comprado por Philippe Cuvelier, um comerciante de Paris. Cuvelier trouxe para sua equipe Stéphane Derenoncourt, enólogo que assessora várias adegas bordalesas como Domaine de Chevalier e La Mondotte – e tem participado da elaboração dos cortes do Talbot. Para muitos, foi a dupla que deu o brilho atual à propriedade. Seja como for, Fourtet elaborou em 2003 um dos melhores Bordeaux que provei dessa safra, rico e potente, esbanjando frutas vermelhas.

O Fourtet 2003 é também raro de achar, mas há por aqui outros dois exemplares, o 2004 e o 2002, ambos corte de Merlot (85%), Cabernet Sauvignon (10%) e Cabernet Franc. O 2004 é o mais estruturado. Nele aparecem frutas vermelhas, toques de torrefação e chocolate preto dando forma a um paladar longo e com textura firme (92/100, US$ 239,50, Mistral). Melhor ainda é o 2002. Belo expoente para uma safra complicada, o Fourtet, equilibrado e sedoso, tem fruta mesclada com leves tons de tabaco, cacau e café que convidam ao próximo gole (93/100, US$ 132,50, Mistral). Aliás, ele levou a taça em abril num painel de Saint-Émilion que teve até um Cheval Blanc 1997.

Em degustação para esta coluna, o Talbot 2004 e os dois Fourtet acima chegaram também na frente do Château Valandraud 2004, um renomado (confesso, não sei por quê) “vin de garage” de Saint-Émilion. O Valandraud não lembra um Saint-Émilion e nem sequer um Bordeaux. Ele é um “arrasa-quarteirão” com pinta de Novo Mundo, limpo e correto, mas tânico e um tanto rude em boca – mesmo após deixá-lo um dia num decanter, como Jean-Luc Thunevin, que o elabora, me recomendou em sua passagem por São Paulo (89/100). Há que reconhecer, porém, que Thunevin tem seus méritos. Bom, pelo menos um: ter conseguido com que o Valandraud atinja o valor totalmente descabido que se paga por ele (R$ 2.408, Casa do Porto).




(*) Jorge Carrara
é colunista de vinhos do jornal
Folha de S. Paulo e do site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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