Prazeres da mesa

Grécia positiva

Há 6.000 anos já se produziam vinhos no país, que hoje esbanja qualidade em brancos frescos, frutados e de boa estrutura

Por: | 29.apr.2013

A Grécia tem ocupado amplo espaço na imprensa nos últimos tempos, infelizmente, por causa de seus tombos econômico-financeiros. Mas o país volta aqui hoje por motivos mais saborosos e agradáveis: seus vinhos.
Sendo talvez o mais tradicional produtor da bebida (as raízes de sua indústria remontam a mais de 6.000 anos), a Grécia produz mais de 350 milhões de litros de vinho por ano. Cultivam-se lá variedades francesas, como a Cabernet Sauvignon, a Merlot ou a Chardonnay, mas a maior parte dos goles, tal como na Itália ou em Portugal, tem como base um tesouro similar ao daqueles países europeus: uma coleção de cerca de 300 cepas autóctones, originais das terras helênicas.
Uma delas chama atenção, a Assyrtiko, uma variedade branca cada vez mais plantada nas áreas continentais, onde se concentra a maior parte da produção etílica do país, mas que brilha com toda a força mais ao sul, na Ilha de Santorini, seu berço natal.
Coroada pelas charmosas casinhas brancas típicas das ilhas gregas e com uma vista espetacular para as águas de azul-profundo que a rodeiam, Santorini se ergue como anfiteatro que mira para a baía criada em seu centro por um antigo vulcão, que, alguns milhares de anos atrás, entrou em violenta erupção enviando para os ares boa parte dela, dando-lhe sua forma e beleza atual.
Em suas encostas estão abrigados 1.400 hectares de vinhas cultivadas de maneira tão peculiar como o ambiente que as rodeia. Em Santorini, os viticultores conduzem os galhos da videira de forma circular, trançando as varas velhas com as novas e formando um cilindro, uma espécie de cesta (ou giristi), que se eleva do solo deixando os cachos protegidos dos fortes ventos que varrem o lugar.
A maior parte das parreiras é de Assyrtiko, uma uva de origem milenar e que se acredita já ocupava espaço antes do acidente vulcânico. A variedade é prezada pelos enólogos por sua capacidade de amadurecer sem perder a acidez. Isso permite criar vinhos plenos de fruta e com paladar vivaz, boa estrutura (e com um delicioso toque mineral dado talvez pelos solos de lava) e, de quebra, aptos para amadurecer em madeira, com a qual combinam muito bem.
Um punhado de produtores opera na ilha. Três deles aportaram por aqui, boa oportunidade para conferir alguns desses Assyrtiko do primeiro time grego.

Domaine Sigalas
Criada por Paris Sigalas, professor de matemática que em 1991 decidiu restaurar uma antiga adega de sua família e elaborar os próprios vinhos. Hoje, possui uma bela coleção de Assyrtiko. Destaque para o Santorini Barrel 2009, elaborado com uvas de vinhas de mais de 50 anos de idade, fermentado em barricas de carvalho francês e amadurecido por seis meses, rico no nariz e na boca, combinando frutas brancas e cítricas, com toques suaves de cedro, baunilha e especiaria, denso, elegante e persistente (92/100, R$ 142,60, Decanter).

Boutari
Gigante da indústria vinícola grega, tem uma de suas (seis) adegas em Santorini. Nela nasceu o Kallisti 2010, o Assyrtiko topo de linha, sete meses em barricas de carvalho gaulês, intenso na fruta (lima, limão, suave pêssego) e nos típicos toques minerais, equilibrado, com bom corpo e acidez (90/100, US$ 43,90, Vinci).    

Gaía
Outra vinícola de ponta que pertence a dois agrônomos: Leon Karatsalos e Yiannis Paraskevopoulos, este último formado também em enologia em Bordeaux e responsável pelos goles da casa. Do portfólio de Santorini, destaque para o Thalassitis 2010, um branco sem madeira, com paladar vibrante pela excelente acidez, bom peso em boca, sabor marcado por lima, limão-siciliano, tênues frutas brancas maduras, longo (91/100, US$ 55,90).
Muito bom igualmente o Wild Fermented, outro 2010, mas vinificado com leveduras indígenas, parte em tanques de inox, parte em barricas francesas, que mostra clássicas notas minerais mescladas com frutas cítricas e leves tons de cedro e especiaria, um branco bem estruturado e persistente (91/100, US$ 55,50, Mistral).

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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