Prazeres da mesa

Guetos gastronômicos

Por: Prazeres Da Mesa | 13.nov.2015

Vou a um restaurante com oito adolescentes. Estamos comemorando o aniversário de 17 anos de um deles. O dono da festa quer uma “experiência gastronômica”.

Diferentes os jovens dessa geração, não é?

Foi-se o tempo do hambúrguer e até o sushi ficou pra trás. Esses jovens – tantos deles interessados em cursos de gastronomia – estão curiosos para experimentar espumas, veloutés, molhos reduzidos, o “ponto” da carne e outras surpresas no prato.

Mas, você sabe, independentemente da geração, adolescentes são ruidosos e tanta energia às vezes escapa às mãos estabanadas. Um copo derrubado, respingos aqui e ali… Eles tentam se conter, sabem que o ambiente – e a circunstância — pedem um pouco da formalidade, que eles ainda não dominam. E porque não dominam, a jovem festa gastronômica incomoda aos que nos rodeiam. Talvez não lembrem mais do tempo em que tinham 15, 16, 17… Nossos vizinhos de mesa se entreolham, balançam suas cabeças, bufam consternados entortando a boca naquele ar blasé fingido de tanto aborrecimento. Percebo o incômodo, peço mais silêncio ainda e o garçom vem nos acudir: “Querem uma mesa ali, no cantinho?”. Note: não há confusão. Há alegria. Mas essa alegria incomoda.

No dia seguinte estou em posição inversa. Na minha mesa, mais dois casais e um clima bem contido. Partilhamos experiências de viagens, bebemos vinhos, lembramos casos antigos, enquanto esperamos nossos filés. Bem ali ao lado, um casal se acomoda com o filho de 5 ou 6 anos que, passados os 15 minutos da novidade no ambiente, se põe a colocar os dedinhos no patê, pedir ao pai que cante mais aquela musiquinha, solicitar ao garçom mais um guaraná. Ele já entendeu que hoje à noite não vai ter tablet nem joguinhos barulhentos à mesa. Mas é uma criança pequena como fomos um dia, eu e você. Que mexe, remexe, se impacienta… A mãe, entre a vergonha e o constrangimento, pede: “baixinho, filho, fala baixinho”. O garotinho entende, mas continua querendo o guaraná que demora a chegar.

Eu, aqui, na mesa ao lado, pressinto o que vem na sequência. Um do meus companheiros de mesa não tarda a se irritar e reclama: “Onde já se viu vir a um restaurante com criança tão pequena?”. Tento contemporizar: “Ah, ele está bonzinho… só é curioso (me lembro da curiosidade dos meus adolescentes no dia anterior)”. Vácuo. Nossos companheiros de mesa aceleram suas taças, devoram seus filés e, conta na mesa, apresentam seus cartões de crédito. Veredito da noite: da próxima vez, vamos a um lugar mais silencioso. Eu, de boca fechada, prevejo… “mais silencioso e mais chato”.

Volto pra casa e um pensamento persiste: Onde foi mesmo que enfiamos a tolerância das nossas avós? Que nos recebiam para os Natais, para as festas de aniversário, onde crianças, jovens e velhos riam e comiam juntos à mesa como se o mundo fosse diverso?

Nos tornamos grupinhos confinados nos guetos dos restaurantes onde criança tem o privilégio da batatinha e a “facilidade” do cardápio kids, desde que vá gritar bem longe dos nossos ouvidos, de preferência lá junto aos tios que enchem balões coloridos e gritam como se surdos fossem os baixinhos.

Os velhos? A eles também não toleramos – comem devagar demais, perguntam inconveniência demais… E sobre os jovenzinhos? Bom, nada a dizer: eles que vão frequentar hamburguerias e fast foods. Afinal, elas estão às milhares por aí.

E o mundo, que já anda tão cansativo, vai ficando ainda mais chato.

Uma bagunça aqui ia bem, viu?

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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