Prazeres da mesa

Histórias de comida, as histórias que ficam  

Por: Prazeres Da Mesa | 6.oct.2016

Tenho 07 anos. São Paulo não é (ainda) a capital gastronômica que será em 30 anos. Há bons – mas poucos – restaurantes pela cidade. Empórios descolados, boas brasseries e delicatessens cheias de variedades gastronômicas… bom, nada disso faz parte do cenário da cidade nos anos 70.

Mas uma pequena casa austríaca, uma portinhola discreta, no bairro de Moema (onde tantos imigrantes de instalaram no pós-guerra), vende presuntos defumados, pastramis, copa, mortadela com grãos de pistache, lombos defumados e, o meu favorito, o presunto xadrez.

As filas no Joan Sehn, que chegará aos 80 anos de vida em 2017, são enormes e ninguém reclama. Meu pai também não. Enquanto espera a vez, toma um chope e eu, olhos grudados na vitrine, vou acompanhando as mãos habilidosas do estrangeiro que fala mal o português e fatia, com precisão, os pedidos dos clientes.

Sempre adorei o ritual de sair com meu pai nas noites de domingo, rodar bons quilômetros na sua kombi branca e azul para buscar os frios na loja austríaca.

Isso foi há mais de 30 anos.

Muitas décadas se passaram e, dia desses, circulando pela cidade com meu filho, esbarramos com outra casa tradicional em São Paulo. Um jovem, se comparado ao octagenário John Sehn, o Konstanz já virou clássico. “Vamos?”, pergunto… “Fechou”, me diz o Leo.

Tomara que coloquem a gente na janelinha, penso… e transmito meu desejo ao mâitre. 15 minutos de espera e, sorte!, lá estamos nós sentados com moldura de cortina com rendinhas.

As duas horas que se seguiram nos embalaram em uma viagem ao passado. Na companhia boa dos bolinhos de cerveja, das gordas bratwurst,as bockwurst, e as fininhas debreziner temperadas com páprica, vou contando ao meu filho quem foi o avô que ele não conheceu, o que fazíamos para nos divertir e, dessa vez, tive a chance de falar sobre os domingos em que saíamos para comprar frios para o lanche da tarde.

Dizem que os adolescentes não são interessados nas histórias de família, que só pensam em seus celulares e traquitanas tecnológicas. Não foi assim conosco naquele domingo frio em Sã Paulo, quando tive oportunidade de recuperar memórias gastronômicas trançadas às memórias afetivas da minha vida, coloca-las na bandeja e entregar, como herança, ao meu jovem filho.

Um daqueles exercícios que a gente nunca deveria ter preguiça de praticar.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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