Prazeres da mesa

IMPRESSÕES SOBRE A BORGONHA

Por: Prazeres Da Mesa | 11.apr.2016

Convidada a degustar vinhos da safra de 2005 da nobre região francesa, pude descobrir a evolução e as novidades de seus vinhateiros

Não há muito tempo, tive o prazer de degustar mais de 60 Borgonha tintos da celebrada safra de 2005 para verificar como eles estão evoluindo (abandonando, finalmente, o tanino nos exemplares mais grandiosos). A degustação foi realizada com uma eficiência admirável pela organização local de vinhos genéricos, o Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne. Como é usual nesse tipo de organização, eles me enviaram amostras para degustação, acompanhadas de um formulário que acompanhava “imperativamente” as garrafas. Uma das perguntas para os produtores era: “O que há de novo em seu Domaine desde 2005?”

Eu estava particularmente interessada nas respostas, uma vez que sinto que nossa impressão geral sobre a Côte d’Or, o coração da Borgonha, é de que ela é uma das mais tradicionais regiões vinícolas do mundo, onde mudanças são pouco frequentes. Mas sei que, na verdade, tendo em vista as trocas na lista de nomes de produtores, a região vem evoluindo tão rapidamente quanto em qualquer outro lugar.

Desde o fim do século XX houve um influxo impressionante de americanos interessados em adquirir uvas, se não terras, com a intenção de tentar a sorte ao fazer sua própria versão de um dos tipos de vinho mais indescritíveis do mundo. Acabei conhecendo um grupo de australianos que estava seguindo o mesmo caminho, isso sem falar em um surpreendente asiático proprietário de um domaine na Borgonha.

O desenvolvimento mais comum relatado nos formulários preenchidos foi uma conversão à viticultura orgânica, biodinâmica ou, pelo menos, no desenvolvimento sustentável certificado. Essa tendência se observou em oito entre os 30 produtores que completaram os formulários, sendo que a maioria deles tinha obtido antes de 2005 o certificado de viticultura orgânica ou biodinâmica.

O Château de la Tour de Clos Vougeot, por exemplo, diz produzir organicamente desde 1992, mas informou que, ultimamente, tem replantado apenas com seleções mistas de plantas que já possuem, em vez de realizar o plantio de mudas cultivadas em um viveiro. Eles são explícitos em rejeitar leveduras selecionadas ou enzimas utilizadas por alguns produtores para suavizar o caminho da fermentação e também continuam “sem trasfega ou clarificação”. Achei especialmente intrigante a informação de que o famoso tanoeiro local, Stéphane Chassin, é quem constrói os barris de nossas madeiras (somente com gramatura fina), e uma vez que a primeira safra é produzida para uma melhor compreensão da vindima, conseguimos chegar a uma combinação perfeita entre a madeira e o vinho. A safra de 2005 certamente foi bem-sucedida.

Tanto o Domaine d’Ardhuy de Corgoloin (a “terra de ninguém” na Côte de Beaune) quanto Rossignol-Trapet de Gevrey-Chambertin converteram-se às práticas biodinâmicas nos últimos dez anos. Por sua vez, Antonin Guyon de Savigny e o Domaine de la Vougeraie de Premeaux-Prissey, logo ao sul de Nuits-St-Georges, vangloriam-se de suas novas vinhas e de seu novo produtor de vinhos em Pierre Vincent, tendo adotado a viticultura orgânica.

René Bouvier esteve espetacularmente ocupado, não somente no trabalho de conversão orgânica para a certificação de 2013 mas também na construção de uma nova adega em Brochon, ao norte de Gevrey, em 2006, testando a fermentação integral (muito na moda) pela primeira vez em 2010, adicionando algumas vinhas do Grand Cru Clos Vougeot em 2012, e trabalhando em uma nova safra de Borgonha, a Cuvée le Chapitre Suivant, em 2014.

Jean-Louis Moissenet Bonnard de Pommard também adicionou muitas novas apelações a uma lista agora compartilhada com a filha Emmanuelle-Sophie. Assim como o grande négociant e o proprietário do vinhedo Bouchard Père et Fils, que presumidamente reorganizaram os negócios na sequência do falecimento do antigo proprietário, Joseph Henriot, Moissenet Bonnard certificou recentemente uma operação de “Alto Valor Ambiental”.

Comprar outros vinhedos e construir novas vinícolas são os desenvolvimentos mais comuns relatados, o que sugere que as coisas estão indo muito bem para esses vignerons, pois os preços das terras na Côte d’Or nunca estiveram tão altos, lembrando que são os mais caros do mundo.

Os Grands Crus da Borgonha mudaram de mãos por uma média de mais de 4 milhões de euros por hectare no ano passado, de acordo com um relatório da Safer, a guardiã das transações de terrenos franceses. (A Safer vai sempre dar preferência a um comprador local da Borgonha contra um comprador novo externo; assim, os estrangeiros em busca de vinhas na região normalmente devem trabalhar em colaboração com um produtor local da Borgonha.) Um vinhedo Premier Cru está sendo vendido por uma média de cerca de 1 milhão de euros por hectare (os vinhedos para produção de vinhos brancos estão consideravelmente mais caros do que os vinhedos para tintos, em princípio porque são muito mais raros). É verdade que a maioria das aquisições referidas nos meus formulários era de lieux-dits (apelação de origem protegida) no nível de Village, um degrau abaixo dos Premiers Crus, mas tenho certeza de que os preços não foram irrisórios.

Fiquei particularmente feliz em ler sobre as novas gerações indo trabalhar em suas empresas familiares. Agora que os vinhos em geral, e especialmente os vinhos da Borgonha, representam uma atividade glamorosa, é raro um domaine na Borgonha não ter herdeiros da família dispostos a assumir a gestão dos negócios. Além disso, como hoje em dia o treinamento formal é de rigor (ainda bem), a maioria dos jovens vignerons e vigneronnes da Borgonha constrói uma rede de contatos, muitas vezes, um grupo de degustação entre colegas, que de forma amigável estuda a enologia e a viticultura na região de Beaune. Isso é muito diferente da realidade de uma ou duas gerações atrás, quando os produtores de vinhos da região diziam não conhecer nenhum de seus vizinhos, tampouco os rótulos que eles produziam. Hoje é raro um jovem francês produtor não ter trabalhado em algum lugar no exterior antes de ingressar no domaine da família e também, graças ao e-mail e à internet, a maioria deles faz parte da comunidade mundial do vinho (uma das comunidades mais invejadas no mundo).

Produzir vinho em uma pequena propriedade familiar na Borgonha se aproxima muito do sonho bucólico de trabalhar a terra (e receber um bom dinheiro por isso), mas nem tudo é um mar de rosas. As leis francesas sobre as heranças são um pesadelo, e a maioria dos domaines é uma conjunção de uma complexa teia de diferentes interesses: muitos membros da família são donos, mas somente um, ou dois deles, realmente trabalha na propriedade. Isso pode colocar uma pressão considerável sobre as relações familiares, pois alguns membros estão somente interessados em ganhar o máximo de dinheiro com o domaine, enquanto outros estão mais interessados em construir a reputação dele com base na qualidade de seus vinhos.

Um dos domaines familiares mais complexos é, sem dúvida, o mais famoso produtor de Borgonha branco: o Domaine Leflaive, em Puligny-Montrachet. Pelo que consta, Anne-Claude Leflaive, que administrava a propriedade desde o início de 1990 até sua morte prematura, no início deste ano, costumava ter de dar satisfação a dezenas de parentes, nenhum deles intimamente ligado à viticultura ou à produção de vinhos. Seu sucesso em convencer todos os seus familiares de que a viticultura biodinâmica era o caminho a se percorrer, na avant-garde de todos os demais produtores, é uma prova da força de sua personalidade.

Desejo muito boa sorte a seu sucessor, Brice de la Morandière (sim, um membro da família numerosa).

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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