Prazeres da mesa

Itália na veia

Primeiro, uma regata gourmet em Veneza. Depois, um passeio gastronômico inesquecível por Florença

Por: Prazeres Da Mesa | 16.nov.2010

 

A participação num curioso evento – uma regata gastronômica – foi um ótimo pretexto para visitar, em junho, a gastronomia e a paisagem estimulantes de Veneza e Florença. O evento foi a S.Pellegrino Cooking Cup. Organizada pelo décimo ano pela água S.Pellegrino, trata-se de uma regata que acontece em Veneza, com 11 veleiros de diferentes países, cada um trazendo um jovem chef de sua nacionalidade – na chegada, são premiados tanto a embarcação (que chegue em primeiro lugar) quanto o chef (que prepare o melhor prato, mesmo que seu barco não ganhe a corrida).

Neste ano, a premiação foi entregue durante um jantar no Palazzo Pisani Moretta (uma edificação belíssima à beira do Canal Grande), com um moderno menu inspirado nas águas dos rios e do mar, que se encontram na laguna de Veneza. Com pratos contemporâneos, foi assinado pelo chef Emanuele Scarello, do restaurante Agli Amici, de Udine.

O grande vencedor (tanto pelo voto do júri quanto do público) foi o aromático prato de nhoque com cogumelos e camarões, preparado pelo jovem Christopher Keung, de Hong Kong. Ele trabalha no restaurante Bo Innovation, do moderno chef Alvin Leung. (Ah! O veleiro ganhador foi o australiano.)

Estando em Veneza, aproveitei uma brecha na programação para almoçar na Osteria da Fiore – uma cozinha soberba. Como entrada, “alga” do mar (massa verde com formato de alga) com moluscos como vieiras, vôngoles, mexilhões. Como o principal, “le moleche”, siris-moles pequenos, pescados na laguna de Veneza e fritos em ovos numa crosta diáfana, servidos com uma leve polenta branca e salada de rúcula.

Encerrados os trabalhos na Cooking Cup, os organizadores levaram chefs e jornalistas para uma esticada até Florença, onde fica a sede de outra marca da empresa, a Acqua Panna. Saindo do mar para o interior, a mudança de paisagem não diminuiu em nada o impacto da beleza e da gastronomia que deixávamos para trás.

Desse cenário faz parte a própria empresa, sediada na Villa Panna – uma antiga propriedade de 500 anos da família Médici, e em que, no meio dos 1.300 hectares de reserva natural, ficam as dez fontes, de onde jorra a água Panna. Em seu jardim bafejado pela primavera e pela beleza da paisagem, aconteceu um almoço que valeu como uma verdadeira aula da cozinha toscana.

Foi preparado ao ar livre pelo chef Marco Stabile, em cinco estações de trabalho.

Uma para os frios (como o presunto cru toscano e a porchetta). Em outras, pratos típicos e rústicos da região: lampredotto (tripa picada e servida no pão com molho de salsa e pimenta); papa al pomodoro (papa de pão, tomate e manjericão); panzanella (salada fria de pão, tomate e temperos); ribollita (também uma mistura de pão com legumes e verduras).

A massa servida foi um tortelli de batata com ragù de pato e porcini. E, finalmente, na grelha revezavam-se linguiças, coelho, hambúrguer de pato e a glória local: a bisteca fiorentina. Para beber, não somente Panna: havia uma enorme seleção de vinhos de Montalcino (Brunello e Rosso), escolhidos por Andreas Larsson, eleito o melhor sommelier do mundo em 2007. No prato e no copo, foi o melhor da Toscana na veia.

* Josimar Melo é crítico de gastronomia do jornal Folha de S.Paulo e autor do guia de restaurantes que leva seu nome. 

 

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