Prazeres da mesa

La mancha em nova fase

A região que abriga 600.000 hectares de vinhedos se volta para a qualidade e já produz vinhos de boa categoria

Por: | 19.jul.2012

Por Jorge Carrara*

Um imenso oceano de vinhas. A frase pode refletir muito bem a dimensão vitícola de Castela – La Mancha, que, no centro da Espanha, abriga nada mais nada menos que 600.000 hectares de vinhedos, cerca de metade dos do país e por volta de 7% dos parreirais do planeta. Com esses números, não é de estranhar que o lugar seja também o lar de uma das maiores áreas demarcadas de terras ibéricas (europeias, e do mundo): com a Denominação de Origem (D.O.) La Mancha.

Encravada no coração da região, La Mancha se estende pelas províncias de Ciudad Real e Albacete, na faixa sul, Cuenca e Toledo, no lado norte, acumulando 165.000 hectares de videiras (equivalente ao total de vinhedos de uvas finas do Chile) onde se mesclam variedades típicas como Verdejo, Tempranillo ou Garnacha e francesas do tipo Syrah ou Chardonnay, que são transformadas em vinho por pouco mais dos 250 produtores que lá operam.

Mas, talvez, a melhor notícia chegada de terras manchegas seja a mudança de rumo tomada por muitas de suas adegas, que, depois de focar tradicionalmente na produção de vinhos a granel, embarcaram nos últimos anos na produção de goles finos, muitos dos quais, melhor ainda, aportam por aqui mostrando-se atraentes no copo e leves no bolso.

Talvez por isso, segundo as informações divulgadas pela organização da D.O La Mancha (lamanchawines.com) cerca de 24 milhões de garrafas com a denominação de origem foram exportadas em 2011. Aliás, a maior parte dos goles que brotam daquelas bandas, ao redor de 65% da produção, tem como destino o exterior.
Visando abocanhar espaço também no Brasil, um grupo de produtores de lá, inéditos por aqui, visitou recentemente São Paulo para divulgar seus vinhos. A prova revelou bons tintos, que parecem ser a principal vocação do lugar, mas também alguns brancos interessantes, densos, mas frutados e benfeitos.

Bogarve 1915
Adega familiar da Província de Toledo, 120 quilômetros ao sul de Madrid, que elabora vinhos desde 1915. No fim dos anos 90, iniciou o plantio de parreiras (um total de 70 hectares) destinadas à nova ala de vinhos finos que estrearam em 2008, e hoje somam 300.000 garrafas por ano.

LaCruz Vega Verdejo 2011
Bom aroma combinando frutas tropicais (maracujá), e cítricas, que aparecem também no paladar equilibrado na acidez, com bom final (87/100).

LaCruz Vega Syrah 2001
Predominam nele as frutas vermelhas mescladas com certos tons defumados e de especiaria. Redondo, tem bom corpo e persistência (87/100). (bogarve1915.com)

Bodegas Parra Jiménez
Firma de Las Mesas, em Cuenca, no canto nordeste da região. Dedicada aos produtos orgânicos, foi criada em 1993 pelos irmãos Javier, Francisco e Luis Parra, descendentes de uma tradicional família de viticultores do lugar. Tem hoje cerca de 170 hectares de vinhas próprias.

Parra Jiménez Verdejo 2011
Outro branco da variedade de perfil moderno. Maracujá e limão-siciliano se combinam no aroma e no sabor moldando um paladar vivaz e persistente (88/100).

Parra Jimenez Crianza 2008
Tempranillo com estágio em carvalho francês e americano. Une framboesa e pinceladas tostadas e de baunilha num paladar longo e sedoso (89/100) (parrafamilyorganic.com)

Bodegas Verduguez
Outra vinícola de Toledo, localizada no canto leste da província, junto a Cuenca. Tem cerca de 150 hectares de vinhas, plantadas com cepas nativas e gaulesas e uma produção de respeito: elabora cerca de 3,5 milhões de litros de vinho por ano. 

Imperial Toledo Oaked Selection 2009
Corte de uvas Tempranillo, Syrah e Merlot, passou três meses em barricas. Macio e equilibrado, une fruta e tons elegantes de madeira (88/100).

Imperial Toledo Old Vine Selection 2009
Tempranillo oriundo de vinhas velhas, amadurecido 12 meses em barricas francesas. Amplo (framboesa, tabaco, baunilha), untuoso e saboroso (90/100). (bodegasverduguez.com)

Dominio de Punctum
Jovem casa da Província de Cuenca. Criada em 2005, pertence à família Fernández Cifuentes. Jesus Fernandez Cifuentes é o diretor da adega. Sua irmã Ruth, enóloga, é a responsável por modelar os vinhos, orgânicos e biodinâmicos, a partir dos 110 hectares de vinhas que possuem.

Nortesur Tempranillo-Cabernet Sauvignon 2011
Seu principal atrativo é a fruta intensa (framboesa, suaves morangos) que marca um vinho redondo que se bebe com facilidade (88/100).

Viento Aliseo Roble Cabernet Sauvignon
Graciano 2010 – Mais estruturado que o anterior, com taninos firmes embrulhando frutas vermelhas, tons de baunilha e torrefação (89/100). (dominiodepunctum.com)

Bodegas Centro Españolas
A vinícola de Ciudad Real, no Sudoeste, nasceu em 1991. Um de seus fundadores é Miguel Angel Valentin Diaz, ex-enólogo das Bodegas Faustino, em Rioja, que voltou a sua terra natal para tocar o projeto, e modelar os vinhos: 2 milhões de garrafas por ano, 90% deles tintos.

Allozo Tempranillo 2011
Tinto jovem, sem madeira, gostoso, marcado por fruta intensa (framboesa, groselhas) que domina um paladar atraente e muito macio (87/100).

Allozo Red Crianza 2008
Tempranillo, com 12 meses de estágio em carvalho americano. Leve coco e baunilha rodeiam um núcleo de frutas vermelhas que perdura no final (89/100). (allozo.com)

* Jorge Carrara escreve também para o site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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