Prazeres da mesa

Leite de mãe e os “dramas” da maternidade

Por: Prazeres Da Mesa | 11.may.2018

A problematização é uma das marcas desses tempos. Nossa mania de fazer drama com tudo que, de fato, não passa de pequeno percalço do dia-a-dia.

Na maternidade mora boa parte dessas queixas. Reclama-se de tudo com relação à criação e à educação dos filhos; muitas vezes começa ainda na maternidade, quando o bebê é trazido para ser amamentado. É o primeiro contato da criança com a alimentação formal, com hora mais ou menos marcada ou de acordo com a fome, a chamada livre-demanda.

Por que digo que é problema? Porque inventaram tantos dogmas com relação à amamentação que as mulheres, mais uma vez, andam se sentindo oprimidas por algo que deveria ser uma entrega natural, um momento de carinho e interação com o bebê.

A Organização Mundial de Saúde preconiza que os bebês devam ser alimentados exclusivamente no peito até os seis meses de vida. E que continuem recebendo leite do peito preferencialmente até o final do primeiro ano de vida. Idealmente, até o segundo ano de vida.

Agora, veja a contradição: a lei brasileira nos proporciona quatro meses de licença maternidade. Ou seis meses, no caso das empresas que aderiram ao programa Empresa-Cidadã, que concede benefícios fiscais aos que ampliarem o período de licença para 180 dias. Daí, pergunto: mas e depois disso?

Depois disso, corra para o banheiro para tirar leite e armazenar na bolsinha térmica. E torcer para que ele não azede no meio do caminho.

Depois disso, arrisque-se pelas ruas na hora do almoço pra tentar amamentar o bebê em casa, na creche ou onde quer que ele esteja.

Depois disso, se a mãe ficar atormentada pela ideia do “tem de amamentar de qualquer jeito”, virá o drama e a problematização.

Então, vamos voltar à maternidade. A amamentação tem virado problema na primeira pegada do bebê do peito. “Ele não pega direito.” “Ele dorme enquanto mama.” “Não tenho leite.” “O leite empedrou.”

E dá-lhe rede social, palpite de amiga, das outras mulheres que passaram por situações semelhantes, deixando a mãe, em questão, um pouco mais desesperada porque não está conseguindo amamentar. Não precisava. Até porque, tudo está SÓ começando, vem tanta coisa depois…

Os pediatras dizem que crianças amamentadas no peito têm sistema imunológico mais fortalecido. É um fato, ninguém discute. Mas deu pra você? Foi possível amamentar como recomendaram todos os programas de saúde?

É preciso considerar que quase nenhuma mãe desiste no primeiro obstáculo. Mas mesmo assim se culpa, se auto-penitencia como se fosse a desnaturada que já não ama o filho, mal ele chegou ao mundo. Vamos jogar essa culpa fora?

Pode não ser ideal, mas os leites para recém-nascidos estão aí justamente para atender à necessidade de mães e crianças que não puderam se beneficiar da amamentação. Os bancos de leite fazem papel semelhante e muitas mulheres recorrem a eles.

A relação do bebê com a alimentação começa, como falávamos, no período da amamentação. Que pode ser naturalmente no peito da mãe, pode ser com leite da mãe ou leite preparado, pode ser oferecido na mamadeira, pode ser de muitas formas. Desde que a mãe se dedique àquela missão com amor. É desse vínculo que vai brotar o que realmente importa, o que será definitivo para a vida desse ser que apenas chegou ao mundo.

Ao invés de problematizar a amamentação, vamos fazer o que der. Só o que der. Incluindo não falar ao celular enquanto alimenta a criança, não conversar em voz alta enquanto ela mama, não bufar porque o bebê adormeceu ou está demorando para sugar. O leite materno é bom. Mas nesse universo tão vasto que compreende a aproximação da mãe, o reconhecimento dela por seu filho, o leite… é só um detalhe.

 

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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