Prazeres da mesa

Língua do conforto

Por: Prazeres Da Mesa | 21.mar.2017

Muita vitrine, muito marketing… na hora H, um prato como qualquer outro. Ou pior ainda do que os outros que não fazem qualquer propaganda. E a gente que foi ali, esperando a novidade, mas não é contemplada com surpresa, só com a frustração. Assim têm sido em alguns dos restaurantes-boutique, modinhas que pipocam aqui e ali, duram um… dois anos… e desaparecem feito poeira.

Meu filho Leonardo, que tem 18 anos e foi muito bem alimentado com a curiosidade desde pequeno, diz que a onda gourmet foi um grande atraso para os restaurantes. Acho interessante a reflexão dele e concordo. Não apenas nós, mas muitos amigos têm se frustrado com arapucas que prometem e não entregam, contrassenso absoluto em uma cidade como São Paulo, que se consagrou pela oferta e pelo leque variado de restaurantes.

Dia desses, depois de ele disputar um torneio de futebol em um campo longínquo, lá fomos nós em busca de algum lugar bacaninha, não muito caro, para comer bem. Não estávamos afim de muita experimentação. Depois de tanta energia gasta na torcida e em busca dos gols, eu e ele nos contentaríamos com uma comida confortável, servida com alguma rapidez e que não devastasse o nosso bolso.

O sanduíche de língua do Z Deli, capaz de fazer voltar no tempo

O sanduíche de língua do Z Deli, capaz de fazer voltar no tempo

Para nossa felicidade, passo bem diante do Z Deli Sanduíches no momento exato em que um carro deixava vago um trecho da rua em que era permitido estacionar. Minha memória fez um looping. Voltei direto para os anos 1980, quando conheci a Rosa e a Zenaide Raw, fundadoras do Z Deli original.

Naquele dia da entrevista, enquanto eu conversava com uma, a outra ia colocando pratinhos diante de mim para que eu provasse as comidinhas sobre as quais elas falavam. Vinte e poucos anos, repórter inexperiente, me lembro de ter saído da entrevista com o mesmo prazer que uma criança sente ao pular do colo de uma avó, depois de uma historinha bem contada. Passados tantos anos, agora com meu filho, pensei: não tem como errar.

O espaço é diminuto, cheio de gente, quase caótico. Mas a hostess na porta me sorriu e eu não sou boa para resistir a sorrisos: “fica, não vai demorar”, nos convenceu. Em menos de dez minutos, estávamos acomodados no balcão, apreciando o cozinheiro montar os pratos.

Cardápio nas mãos e mais um solavanco da memória. Entre os sanduíches recomendados, ali estava um de língua defumada. Fazia tempo que eu não comia língua. Na infância, a minha mãe fazia língua ensopada, cortada fininha, ao menos uma vez por semana. E eu, que era chatíssima pra comer, pensava: hoje ela quis me agradar. Nos aboletávamos os quatro irmãos, rapidinho na mesa, porque atraso era sinônimo de ficar sem. E ficava mesmo, porque a língua que a minha mãe preparava era bem boa.

De volta à sanduicheria do neto da Rosa e da Zenaide, o Julio Raw, pensei: vou tirar a barriga da saudade e me fartar com esse sanduíche de língua. Assim foi. Uma viagem no tempo, com saltos, intervalos, lembranças, pouco papo e muitas mordidas.

Fazia tempo que eu não devorava um prato tão rápido, que não ficava tão feliz ao final de uma refeição, que não encontrava uma comida que me proporcionasse tanto conforto. E olha que era “só” um sanduíche, hein?

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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