Prazeres da mesa

Luxo ou decadência?

Por: Prazeres Da Mesa | 15.may.2015

Refugiar-se nos shoppings para comprar já é triste; para comer, é totalmente indigesto

Nas minhas rondas pelos restaurantes de São Paulo tenho me deparado com um fenômeno cada vez mais frequente, e preocupante: a abertura de casas importantes nos shopping centers.

Não me refiro a algo que já acontece há muito tempo — as filiais. Isso também tem se intensificado, e desde o Gero (um dos primeiros), hoje Rodeio, Le Jazz, Varanda, Spot aderiram ao movimento.

É um meio de aliviar um pouco a chatíssima experiência de estar naquelas prisões de luxo, ao menos comendo algo que já é conhecido na cidade e de comprovada qualidade.

O que mais me preocupa é que, ao invés de filiais, os shoppings estão abrindo restaurantes novos, de proprietários de casas tradicionais, que no passado certamente os abririam a céu aberto, voltados para a cidade, não para a demência consumista e murada dos shoppings.

Em poucas semanas, estive em três: o Junji, do sushiman Jun Sakamoto; o Cortés, churrascaria dos proprietários do Ráscal; e Bráz Trattoria, dos empresários que têm, entre outros, as pizzarias com esse nome, associados aos donos do gastronômico Ici Bistrô.

Nos três casos, ocorre o mesmo artifício: instalar os restaurantes em locais do shopping com vista para fora, meio como um respiro (ou um disfarce) para a claustrofobia.

Não sei que tipo de gente pegaria seu carro, “sairia” da cidade para se internar num caixotão, lutaria por uma vaga no estacionamento, desbravaria corredores e escadas… para comer num shopping. É possível que tais restaurantes sejam pensados para um público que já está lá dentro, comprando.

No entanto, quando abrem restaurantes novos de chefs ou restaurateurs de renome, parece que se está mirando outro público: trazer para dentro do shopping o amante da gastronomia, interessado no tema. O que na lógica do shopping (que, no caso dos mais novos e luxuosos em São Paulo, andam bem vazios), faz todo sentido.

O que não sei é se isso faz sentido na lógica da cidade e do cidadão. As alegações de que shoppings são lugares seguros, por exemplo, me parecem muito mais um argumento para reforçar a insegurança do cidadão, uma válvula de escape para justificar que o poder público relaxe sua função de prover segurança, e os magnatas imobiliários multipliquem seus lucros.

A experiência de sair para comer — caminhando para lugares próximos de casa, ou depois de sair de um cinema, ou mesmo depois das compras nas ruas comerciais — é uma forma de se apropriar da cidade, mistura de cultura gastronômica, lazer e cidadania. Refugiar-se nos shoppings para comprar já é triste; para comer, é totalmente indigesto.

Sergio Castro, Gabriel Bialystocki, Josimar Melo_Ed.90Fotos carol Gherardi

*Um dos maiores críticos gastronômicos da América Latina e autor da coluna Bom de mesa, de PDM

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