Prazeres da mesa

Mãe, ele comeu todo o couvert

Por: Prazeres Da Mesa | 12.aug.2016

Quanto custa um bom couvert? 7 reais por pessoa? 9 por pessoa? 30  reais pelo couvert completo, para a mesa toda, com direito à reposição? Aliás, qual é a diferença entre o completo e o simples? Quem determina o que é simples ou completo, com base em quais parâmetros?

Couvert é palavra francesa que representa o conjunto de apetrechos sobre a mesa: toalhas, guardanapos, talheres… Por aqui, abrasileiramos e, acho que para não ficar essa coisa sem graça de “garfo sem ter o que espetar”, “prato sem ter o que abrigar”, demos uma engordada nele, incluindo um pãozinho com manteiga, umas pastinhas, as azeitonas, uns beliscos…

Na França, o amuse bouche faz essa função e costuma ser mais criativo. Ao pé da letra quer dizer: “distração para a boca (enquanto espera a comida)… para não morrer de fome”. Não costumam cobrar pelo amuse bouche; é cortesia dos restaurantes e, melhor de tudo, sempre uma surpresa. O chef escolhe o amuse bouche do dia e faz o agrado ao cliente.

Mas couvert não tem modelo e até acho que essa é a graça de sair para comer em estabelecimentos diferentes. Gordão e bem servido – como no La Mole, no Rio de Janeiro, com indiscutíveis 12 itens. Impecável como a sardinha escabeche do Rufinos, do Guarujá, em São Paulo. O couvert traz uma espécie de D.N.A. do restaurante e serve para acalmar as crianças.

Você aí, que sai para almoçar com os pimpolhos, sabe o quanto um bom couvert é aliado dos pequenininhos impacientes. O risco é encher a barriga de pão mas, aí, fica por sua conta educar à mesa. Aliás, educar à mesa!!! Eis a questão.

Citei o couvert do Rufinos, que coloca sardinhas escabeche à frente de cada comensal, mas via de regra não é assim. Couvert costuma vir no coletivo. Não vale, não pode, fica decretada a proibição de se jogar em cima dos petiscos como se eles fossem só seus… ou só dos seus filhos.
Há algumas semanas, fui almoçar no Mellão, que figura no hall dos restaurantes amorosos de São Paulo, porque inevitavelmente o chef Hamilton Mellão vem à mesa, conversa, pergunta, quer saber… e vaza porque, ele sabe, é personagem principal do evento, mas tem de ficar oculto, por conta das panelas.

Pois estávamos no Mellão para um almoço a dois. Na mesa vizinha, uma grande família. O couvert do Mellão custa 13,90 reais e eu colocaria no pódio do melhor custo-benefício da cidade: abobrinha agridoce, queijo mascarpone, foie-gras, sardela e um pão com linguiça de comer ajoelhado.

Divertíamo-nos com o nosso couvert quando as crianças da mesa ao lado começaram uma briga de foice pelos itens à mesa. Antes que a disputa terminasse em guerra, o garçom, bem atento no posto, e vendo que os pais não apartavam a briga, se aproximou: vou dar um pratinho pra cada um e aí vocês ficam contentes. Silenciaram-se.

A atitude não foi educativa. Mas não era função do garçom ensinar e disciplinar os pimpolhos inquietos (como não é função das vendedoras de lojas de roupa, tantas e tantas vezes incumbidas de cuidar de crianças enquanto mães se entregam ao tira e põe no provador). Até por isso agradeço ao jovem sensível por ter disponibilizado o couvert fartamente às pestinhas. Porque graças a ele pudemos ali, na nossa mesinha de canto, desfrutar nosso almoço em paz.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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