Prazeres da mesa

Mais uma vez no Porto

Por: Prazeres Da Mesa | 15.dec.2016

Uma viagem para rever amigos, recolher centenas de rótulos e saborear a deliciosa gastronomia que a cidade oferece

Foi a 55a visita à Invicta, assim é conhecida a Cidade do Porto. Foi tão emocionante como da primeira vez. Vindo do Alentejo e Lisboa cheguei ao Porto em um sábado à tarde. A cidade estava abarrotada de turistas, afinal era temporada de férias na Europa. O Cais da Ribeira e a Margem de Gaia mais pareciam uma Torre de Babel de tantos idiomas distintos que se podiam ouvir. Com um calor abrasador, apreciamos um bom Alvarinho da Quinta da Lixa e algumas pataniscas de bacalhau, enfim, acalmaram nosso apetite. No domingo fomos à Praia da Madalena, em Vila Nova de Gaia, almoçar com amigos e a família do querido Manuel Joaquim Poças Pintão, parceiro e mestre no vinho do Porto há mais de 40 anos. Sua mulher, Vera, esmerou-se no pudim de peixe acompanhado de bons vinhos brancos maduros da Casa Poças. Conversa solta e muitas histórias revelaram mais uma vez o quanto nós brasileiros somos queridos pelos portugueses.

No dia seguinte fui ao município da Maia no Grande Porto às instalações da Packigráfica, hoje proprietária do espólio da antiga Gráfica do Bolhão. Foi a partir do ano de 1923 que a Gráfica do Bolhão começou a imprimir rótulos para as diversas casas produtoras de vinho do Porto. Esse foi o objetivo maior de minha visita ao antigo museu da Gráfica, onde 48 gavetas repletas de envelopes guardam milhares de rótulos de vinho do Porto, desde a época em que eram impressos em alto-relevo utilizando-se matrizes de pedra.

Desde o ano de 1982 coleciono rótulos de vinho do Porto. Hoje possuo alguns milhares, mas sei que há outros milhares de exemplares que ainda não tenho, daí minha investida no passado e na história dessas gráficas antigas. Ajudado por Leda e Carlos Jorge Barreira, chefe dos Arquivos da Ferreira e da Sandeman, pude fotografar mais de mil exemplares que ainda não possuo e que serão devidamente catalogados e inseridos na próxima edição do Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto, cuja versão para o inglês está sendo caprichosamente preparada.

Juntei à coleção rótulos antigos da Taylor’s e de um produtor da Régua que não conhecia Jose Luis Borrajo.

Visitei o novo Centro de Recepção de Turistas da tricentenária Casa Taylor’s, em Vila Nova de Gaia. Tudo muito moderno e de esmerado bom gosto, a visita é interativa, não há guia que acompanhe o visitante, ele mesmo pode aos poucos, com os recursos da informática passear pelos armazéns de vinhos velhos, garrafeira de Vintages e Colheitas além de visitar uma área onde só se armazenam os Porto Vintages, que são as joias da casa! Jantei no restaurante da Taylor’s que tem uma vista surpreendente sobre Gaia e a cidade do Porto – a gastronomia é de primeira. Alguns Porto velhos acompanharam os queijos e as sobremesas, difícil descrever o que estava melhor.

Voltando a Ribeira do Porto, recomendo uma refeição no Hotel Pestana, cujo restaurante é uma ilha de requinte e bom gosto em meio às vielas castiças dessa região da cidade.

Uma visita às lojas de vinhos da Barros e Almeida, da Kopke, da Sandeman, do Porto Cruz, Ramos Pinto e do Noval é capaz de tirar qualquer ser humano do eixo! Dezenas de garrafas de vinho do Porto antigas são oferecidas por um preço justo e honesto. Assim se pode celebrar uma data querida sem ter de deixar uma fortuna nas lojas!

Na calçada da Av. Ramos Pinto, logo após o Mercado de Gaia há um restaurante muito pequeno, que só dispõe de 20 lugares, muito estreito, de fora nem se nota que é um restaurante, mas ao entrarmos logo se sente a simpatia dos irmãos Victor e José, que, com a mãe, Maria do Céu, na cozinha, capitaneiam o delicioso Restaurante Dom Luis. Ali sentimo-nos em casa! A comida é de primeira grandeza, toda a tradicional cozinha portuguesa está na ementa que alegra o mais exigente gastrônomo. Da carne de porco bem cozida (com umas batatas coradas que parecem ter-se bronzeado ao sol!) passando-se pelos maravilhosos filés de pescada, um bacalhau assado com cebola e mais uma dezena de outros pratos, isso sem contar com a joia da casa, o leite creme fresco, que é queimado na hora, seguramente sentimos muito quando a refeição chega ao fim. A carta de vinhos é pequena, mas muito bem escolhida e tem os preços mais honestos que já encontrei em um restaurante em Portugal. Ali tradição e vontade de servir, junto a se fazer o que gosta, são exemplos que muitos deveriam copiar.

No final, uma taça de Porto Noval limpou o cérebro, lubrificou o coração e lavou a alma!!

Embora tenha estado por 55 vezes no Porto, já estou programando a próxima visita. Afinal, ainda há uma ementa enorme de pratos não provados, centenas de vinhos a ser degustados e milhares de rótulos a ser descobertos dentro do fantástico universo do vinho do Porto!

Carlos Cabral

*Estuda vinhos há 43 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema

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