Prazeres da mesa

MARAVILHA CHILENA

Por: Prazeres Da Mesa | 27.jun.2017

O Almaviva é o verdadeiro vinho ultra-premium chileno

Independentemente da (desmedida) importância que os rótulos mais baratos assumiram no Brasil na atualidade – fazer o quê? No conturbado momento econômico que vivenciamos, é o que a maioria dos consumidores consegue comprar – e que faz com que o Chile, que é muito forte nesse segmento, mantenha a liderança folgada no ranking de importação de vinhos por aqui, não se deve esquecer de que os tintos e brancos chilenos contribuíram significativamente para a formação cultural dos brasileiros nesse quesito.

Os vinhos chilenos foram a tábua de salvação de enófilos brasileiros quando ainda não tínhamos a boa oferta de rótulos europeus que passamos a ter com a abertura das importações em 1991 e que nos dava novos parâmetros. O setor vitivinícola do Chile, por sua vez, estava em um momento de transição, recuperando-se das turbulências políticas dos anos 1970 e 1980, época em que o consumo interno de vinhos caiu drasticamente, e a exportação foi afetada pela resistência externa à ditadura Pinochet. Durante a crise, estima-se que metade dos vinhedos chilenos foi arrancada. Havia também forte concentração da produção na mão de poucos grupos.

O cenário começou a mudar no final da década de 1980. Encorajados pelo crescimento das vendas internas e externas, vários produtores de uvas se emanciparam, começando a elaborar e comercializar os próprios vinhos. Além de chilenos, nomes estrangeiros de peso começaram a se instalar, atraídos pelas excepcionais condições locais, que permitem produzir bons rótulos a preços bastante competitivos no mercado global.

Como não se ganha prestígio e reconhecimento oferecendo apenas bom preço, era necessário demonstrar capacidade para produzir grandes vinhos também. Os produtores chilenos se voltaram, então, à elaboração de tintos de categoria superior, premium e o que denominaram de ultra-premium. Embora haja uma série de rótulos que fazem jus a tal denominação, pouquíssimos conseguiram tanto destaque e prestígio quanto o Almaviva. É, talvez, o único tinto do Chile que tem lugar certo nas boas adegas de apreciadores exigentes, ao lado de prestigiadas garrafas europeias.

Até ajuda o fato de ter nomes de peso por trás – é uma joint-venture entre os grupos Concha y Toro, o maior complexo vitivinícola do Chile, e o celebrado Baron Philippe de Rothschild, proprietário do Château Mouton Rothschild, entre outros châteaux bordaleses, e do Opus One, da Califórnia. Mas o que levou o Almaviva à condição de ícone foi realmente a qualidade e a consistência que apresenta desde a primeira safra, a de 1996. Não é obra do acaso.

Desde o princípio, tudo foi cuidado nos detalhes. O vinhedo está localizado em Puente Alto, zona privilegiada da Região de Maipo, cuja excelência de seu terroir se deve à influência da Cordilheira dos Andes, convenientemente próxima, e da bem posicionada distância de 4 quilômetros do Rio Maipo, fatores responsáveis pelo clima seco – média de 350 milímetros de chuva por ano, concentradas no inverno – com calor moderado e noites frescas no verão, e um solo pobre e pedregoso que proporciona boa drenagem. Essas condições permitem um lento e propício processo de maturação, em especial à Cabernet Sauvignon, ensejando vinhos naturalmente equilibrados, com níveis desejáveis de acidez, bons taninos e estrutura.

No acordo, coube à Concha y Toro ceder uma parcela de 85 hectares do que tinha de melhor na área – fazia parte do vinhedo do Don Melchor – e aos Rothschild entrar com a adega, iniciada em 1998 e inaugurada oficialmente em 2000. A direção técnica é compartilhada com um enólogo/diretor-chefe, em geral designado pelos franceses – o primeiro foi Pascal Marty, que ficou até 2004, seguido de Tod Mostero, ambos egressos do californiano Opus One, e, desde 2007, Michel Friou, trazido da França por Michel Roland para comandar a Casa Lapostolle, em meados da década de 1990 –, e um conselho composto por representantes técnicos de cada parte. A identidade do projeto também tem a ver com ambos os lados, ou, melhor dizendo, com as duas culturas: o nome, embora soe latino, pertence a um clássico da literatura francesa, o Conde Almaviva, herói da obra Le Marriage de Fígaro, de Beaumarchais, e transformada por Mozart em famosa ópera; o logo no rótulo está associado ao “kultrun”, tradicional tambor mapuche, civilização indígena que habitava o Chile antes de sua descoberta, e os traços estilizados são uma interpretação da visão que eles tinham da terra e do cosmo.

A Viña Almaviva conta atualmente com cerca de 60 hectares plantados, 75% em Cabernet Sauvignon, ficando o restante dividido entre Carménère e Cabernet Franc, e, ainda, Merlot e Petit Verdot, com menos de 1 hectare cada uma. Do total, 30 hectares correspondem a parreiras velhas não enxertadas, plantadas em 1978 – dos 40 hectares originais, 10 hectares em decadência foram replantados com adoção de técnicas vitícolas mais adequadas e sob um critério de substituição visando a melhorar o padrão genético. As parcelas mais novas datam de 2001 e 2003 (mais 4 hectares em 2008), todas com uma densidade maior de plantação, 8.000 pés por hectare, mais próxima, portanto, do padrão bordalês.

Desde 2005 foi implantado um programa de estudo profundo de todo o vinhedo, tendo sido daí identificadas microzonas, que são colhidas e vinificadas separadamente, o que permite escolher lotes mais homogêneos para, depois de rigoroso processo de seleção, compor o blend final. Não mais do que 60% da produção é utilizada para produzir o Almaviva. O restante, e mesmo assim com mais uma triagem, segue para o segundo rótulo, o Epu. É, no fundo, um conjunto de detalhes em busca de patamares ainda superiores de qualidade, algo que tem sido notoriamente alcançado e possível de acompanhar na medida em que Michel Friou começou a vir com mais frequência ao Brasil, nos últimos anos, para apresentar as novas safras do Almaviva, sempre carregando consigo algumas colheitas mais antigas para avaliar o que tem mudado.

Modesto, ele se abstém de comentar, mas, mesmo com o aprimoramento das técnicas de vinificação ao longo do tempo e considerando que depois desses estudos todos há na vinícola um conhecimento mais avançado do terroir de que dispõem, os vinhos estão mais elegantes e equilibrados, além de refletirem com fidelidade as variações do clima de ano para ano, conceito, aliás, que faz parte do zelo de Michel em fazer com que o Almaviva expresse suas origens. Assim, juntando os emblemáticos 1996 (o de estreia, que está bem vivo e mantém o estilo bordalês) e o sempre soberbo 2001, entre outros que ele trouxe nas últimas três ou quatro vezes para servir de referência, aos das safras mais recentes, 2010 é uma bela surpresa e define melhor a mudança de comando; 2011 é uma grande safra e o Almaviva beira a perfeição; 2012, ano mais quente, demonstra o acerto na condução; 2013, ano fresco, semelhante climaticamente a 2011, mas com rendimentos mais altos, mantém alto nível; e o mais recente, 2014, lançado mundialmente há poucos meses, é a melhor homenagem que a vinícola poderia prestar à baronesa Philippine de Rothschild, que morreu neste ano.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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