Prazeres da mesa

Medalhas para os melhores

O Argentina Wine Awards 2009 mostrou que nossos vizinhos continuam no caminho certo na busca por vinhos de qualidade

Por: Prazeres Da Mesa | 19.apr.2009

(*) POR JORGE CARRARA

Um elenco de vinhos que deixou claro a quantas andam os goles do país, degustados em excelente companhia e em meio a uma organização que lembrou, hora após hora, o significado da palavra impecável. Foram essas as principais características do Argentina Wine Awards 2009, concurso organizado por Wines of Argentina, entidade que reúne mais de 100 adegas exportadoras platinas. Participaram da terceira edição do evento, realizado em fevereiro, em Mendoza, 128 vinícolas do país, que enviaram 512 amostras para ser avaliadas por um júri composto por 12 membros internacionais da imprensa especializada, acompanhados de seis enólogos argentinos.

Os vinhos, degustados às cegas, apenas sabendo o tipo e a faixa de preço, podiam, dependendo da performance, ser premiados com medalha de bronze, prata ou ouro. Dentro dos ouros de cada categoria, os jurados tinham ainda a chance de distinguir um deles com o Trophy, um selo de destaque entre os campeões (a lista completa das premiações pode ser encontrada em www.winesofargentina.com.ar.

Tive a oportunidade (tão deliciosa quanto enriquecedora) de degustar mais de 200 exemplares que deixaram claro que os vinhateiros argentinos estão afinando cada vez mais a pontaria (as adegas comentadas presentes no Brasil, têm o importador indicado). Houve bons brancos da safra 2008. Entre eles, um par de Chardonnay, o Séptimo Dia (Interfood), da adega de mesmo nome, de propriedade da espanhola Codorniú, um vinho fermentado (60%) em barricas, vivaz, com boa fruta, longo (88/100, as notas são pessoais, foi Bronze no concurso) ou o Trivento Golden Reserve (Wine Premium) igualmente fresco, com boa acidez em boca, marcado por maçã e leve torrefação (89/100, Prata). Provei também agradáveis Torrontés, frescos e ligeiros no estilo do Crios 2008, de Susana Balbo (Cantú), com aroma e sabor que mesclam frutas e flores, como rosa e lavanda, ou o Finca La Linda (Decanter), outro exemplar marcado pelo frutado-floral clássico dessa cepa (ambos 89/100, e Ouro para os dois).

Encerrada a maratona etílica, porém, os tintos acabaram roubando a cena e também o pódio de inscrições da competição, com 76% do total de amostras apresentadas. Foram servidos bons Tempranillos (do estilo do Moebius 2007 da Bodega Santa Ana, denso, encorpado, marcado pela madeira, 90/100, Prata) e belos Cabernet Sauvignon, como o Bramare da Viña Cobos (Grand Cru), amplo e complexo, mesclando framboesa, caramelo e especiaria, num sabor persistente (91/100, Ouro, Trophy da categoria).

Mas tal como em concursos anteriores, o maior número de destaques ficou restrito a duas alas. Uma é a dos Malbec, sem nenhuma dúvida e por muitos motivos a uva emblemática da Argentina. A outra, cada vez mais interessante, é a dos blends, tintos de corte, que mesclam diferentes cepas e terroirs, trazendo ao copo goles amplos e complexos, entre os melhores do país. Entre os Malbec, houve amostras muito concentradas, nas quais talvez se tenha tentado extrair demais das uvas, resultando em vinhos sem uma característica fundamental desses tintos: os taninos doces que moldam um paladar macio.

Três dos degustados, todos da safra 2006, ficaram para mim na ponta. Um é o Kaiken Ultra (Vinci), um vinho intenso e sedoso amadurecido em barricas de carvalho francês, marcado por fruta concentrada (90/100, Prata); o segundo, o Bramare, outro da Viña Cobos (Grand Cru), assinado pelo enólogo americano Paul Hobbs, dominado por sabores de compotas, frutas em calda e especiarias doces (91/100, Prata); e o Doña Silvina Reserva, das Bodegas Krontiras – uma nova casa de Mendoza de propriedade de um empresário grego – um belíssimo tinto, untuoso, com paladar de textura deliciosa dominado por sabor de ameixas maduras, leve chocolate e especiaria que perdura por muito tempo na boca (92/100, Ouro e Trophy).

Já no canto dos vinhos de corte, a lista de favoritos é um pouco mais longa. Começo com o Norton Privado 2006 (Expand), de uvas Malbec (40%) com partes iguais de Cabernet e Merlot, com boa estrutura, mas macio, dominado por frutas vermelhas bem temperadas com madeira (92/100, Ouro). Muito bom desempenho mostraram também o Finca La Célia Elite 2006 (Interfood), um Malbec-Tannat amadurecido em carvalho francês e americano, que une fruta, tabaco e especiaria num paladar complexo (92/100, Ouro) e o Alcataya da François Lurton, um Malbec-Syrah atraente, intenso na fruta, aveludado no paladar, moderado na madeira (92/100, Ouro).

Os dois melhores foram o Pulenta Estate Gran Corte 2005 (Grand Cru), corte de uvas Malbec e Cabernet, que predominam, com Merlot e Tannat, um rubro amplo e delicioso no nariz e na boca, rico em frutas vermelhas mescladas com pinceladas de baunilha e chocolate (93/100, Ouro) e o Eral BravoYBS 2006. O tinto da Eral Bravo, elaborado com uvas Malbec (60%) e Cabernet Sauvignon, com passagem de 16 meses por barricas de carvalho francês, se mostrou potente e ao mesmo tempo sedoso e elegante, unindo cassis, ameixas e groselhas com pinceladas de especiaria, oriundos da madeira num sabor sedutor e persistente (93/100, Ouro).

Jorge Carrara viajou a Mendoza a convite de Wines of Argentina

(*) Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S. Paulo e do site Basilico

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*Escreve também para o site Basilico

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