Prazeres da mesa

MIX VARIADO

Por: Prazeres Da Mesa | 27.jun.2017

Brancos e espumantes para os dias mais quentes e bons rubros da Borgonha

Com os primeiros dias de janeiro dando sinais de que o verão veio para valer, é natural que brancos e espumantes ocupem espaço nesta coluna. O departamento efervescente está dominado pelas borbulhas nacionais, grande destaque da nossa vitivinicultura, de casas pilotadas por dois experientes craques estrangeiros, ambos com longa trajetória no Brasil e grande intimidade com os ondulados vinhedos da Serra Gaúcha.

A ala dos vinhos tranquilos, abriga um Chardonnay argentino que brilha numa categoria, a dos goles brancos, em que o país fica em geral a sombra dos similares chilenos, mas na qual as adegas platinas, com seus novos vinhedos de altura, afinam cada vez mais a pontaria. Em tempo, apesar dos calores que abriram o ano, incluo também aqui (agora ainda mais animado pelo frescor que embrulha a chuva que não para de cair em São Paulo enquanto escrevo estas linhas) quatro tintos que aportaram no apagar das luzes de 2016. Oriundos da Borgonha, no centro-leste da França, eles são uma boa pedida de uma região na qual, em geral, não é fácil encontrar um exemplar que compense no copo o que se paga por ele.

Brasil

Cave Geisse (Pinto Bandeira)

O enólogo chileno Mario Geisse chegou à Serra Gaúcha em 1976 para iniciar as operações da Chandon na América Latina. Em 1978, encantado pelas condições do lugar para a produção de espumantes, comprou terras em Pinto Bandeira, a noroeste de Bento Gonçalves, e plantou vinhedos, dando o pontapé inicial para a criação da Cave Geisse, hoje uma das vinícolas de ponta no mercado de espumantes. A casa acabou de criar um novo rótulo, Victoria Geisse, que é distribuído exclusivamente por uma importadora. Dois Extra Brut safrados são os destaques do lançamento.

Victoria Geisse Extra Brut Rosé Vintage 2015 – Um Pinot Noir 100% elaborado pelo método tradicional (com a segunda fermentação, na qual nascem as borbulhas, realizada na própria garrafa), passou 12 meses com as borras, antes de ser finalizado. Mostra aroma de boa intensidade (leve maçã, groselha). Em boca aparecem também suaves frutas vermelhas e marmelo rodeados de mousse fina (avaliação: 88 pontos em 100).

Victoria Geisse Extra Brut Vintage 2015 – Também elaborado pelo método tradicional, é corte de Chardonnay (75%) e Pinot Noir. Maçã, leve abacaxi e tons cítricos marcam o aroma e o sabor desse branco vivaz. Tem bolhas finas e abundantes que lhe dão boa cremosidade (88/100). Ambos  69 reais, na Grand Cru; grandcru.com.br

Adolfo Lona (Garibaldi)

O argentino Adolfo Lona desembarcou também em terras gaúchas nos anos 1970 para comandar, em Garibaldi, a divisão de vinhos finos da Martini-Baccardi. Criou nela o Baron De Lantier Cabernet Sauvi- gnon, primeiro tinto nacional amadurecido em barricas de carvalho, que chegou a ser um dos melhores rubros do país. Encerradas as atividades da Baccardi, Lona partiu para voo solo, criando a própria empresa que, dedicada aos espumantes, estreou em 2004. Uma prova recente trouxe à tona as últimas edições da casa, todas elaboradas com vinho-base envelhecido por dois anos, antes de ganhar as borbulhas, o que outorga aos vinhos um perfil peculiar, prazerosamente gastronômico. Menção para dois Brut e um belo Nature (sem adição de açúcar).

Adolfo Lona Brut Rosé – Combina uvas Chardonnay e Pinot Noir e ganha as bolinhas pelo método charmat (segunda fermentação em grandes tanques). Neles passa seis meses em contato com as leveduras, antes de ser engarrafado. Frutas brancas e vermelhas aparecem no aroma e no sabor embrulhadas em um suave torrado. Cremoso, tem boa acidez (88/100, R$ 57,20).

Adolfo Lona Brut – Outro Chardonnay-Pinot Noir pelo método charmat. Toques tostado-minerais junto a pinceladas de fruta (lichia, maçã) dão forma a um paladar seco, de corpo médio, com boa textura e final (88/100, R$ 57,20).

Adolfo Lona Nature – Elaborado pelo método tradicional, passa 18 meses na garrafa antes de ser arrolhado. Corte de Chardonnay, Pinot Noir e Merlot (em branco) é um vinho de sabor complexo (firmes tons minerais, frutas brancas, suaves avelãs) e persistente, com bom corpo e presença em boca, boa escolta tanto para iguarias do mar como para outras mais vigorosas, da terra (91/100, R$ 77,96). Os três à venda na vinícola, comercial@adolfolona.com.br

Argentina

Zorzal Wines (Mendoza)

Dois jovens winemakers, Matias Michelini (ex-Luigi Bosca, Doña Paula e Finca Sophenia) e seu irmão, Juan Pablo, são sócios-proprietários da adega, que nasceu em 2008. A cantina e os vinhedos que a alimentam estão a sudeste da cidade de Mendoza, no Vale de Uco, ao pé dos Andes e a mais de 1.300 metros de altura. Os Michelini não fogem das cubas de inox ou de carvalho para talhar seus vinhos, mas têm sido pioneiros na utilização de ovos de cimento, recipientes ovoides de concreto para fermentação e afinamento, que transmitem uma pátina toda especial aos vinhos.

Prófugos Chardonnay 2015 – O vinho estagiou em ovos de cimento. Ele tem cor dourado-claro e mostra firmes traços minerais e de suave torrefação mesclados com frutas brancas e certo toque floral que preenchem um paladar untuoso, equilibrado, amplo e longo. Um Chardonnay diferente, muito atraente e com bela performance para seu valor (90/100, R$ 63); grandcru.com.br

França

Domaine Gay-Coperet (Beaujolais)

A região, no extremo sul da Borgonha e reduto da uva Gamay, é mais conhecida, infelizmente, pelos Beaujolais Nouveau, rubros vinificados às pressas e acabados idem para ser os primeiros da safra europeia a chegar ao mercado e, talvez por isso, normalmente fracos e desequilibrados. Mas o lugar tem também Gamay sérios nascidos nos “Crus”, terrenos privilegiados como Chénas, Morgon ou Moulin-a-Vent. Maurice Gay se especializa, precisamente em vinhos desse último terroir, Moulin-a-Vent.

Maurice Gay Moulin-a-Vent Vieilles Vignes 2015 – De cor retinta, com tons violáceos, antecipa no visual a concentração em boca. Ele é um rubro denso marcado por frutas vermelhas temperadas por toques terrosos que dão amplitude a um paladar redondo, saboroso e persistente (91/100, R$ 110).

Domaine des Chenevières (Mâcon)

Mais ao norte está Mâcon. Nicolas e Vincent Lenoir, quinta geração da família de fundadores, dirigem Chenevières, que conta com 38 hectares de vinhas, que, na ala rubra, incluem também fileiras de Gamay, cepa que dá vida ao tinto de hoje.

Les Sillons Longs Mâcon Rouge 2015 – Oriundo de parreiras com idade média de 50 anos. Vinho robusto, com bom corpo, taninos firmes e paladar atraente marcado por fruta (cereja, groselha) e geleias (89/100, R$ 80).

Jean-Baptiste Ponsot (Rully)

Rully, na Côte Chalonnaise, entre Macôn, ao sul, e a renomada Côte de Beaune, ao norte, é o lar do jovem Jean-Baptiste Ponsot, dono de cerca de 8 hectares de vinhedos no lugar, a maior parte deles em terrenos Premier Cru, como os que originaram esses dois Pinot Noir.

Rully 1er Cru Molesme 2014 – Mostra logo um aroma exuberante que combina geleias, frutas vermelhas e especiaria doce e que parece querer pular do copo. Na boca, repete a performance no sabor complexo, intenso, com final delicioso (93/100, R$ 165).

Rully 1er Cru La Fosse 2014 –Uma versão mais estruturada do Molesme e que requer paciência. Ele demora para abrir, mas acaba gratificando o paladar com fruta intensa bem temperada por baunilha e canela, um conjunto sedutor que perdura muito tempo em boca (93/100, R$ 165). Os quatro à venda na Cellar; cellar-af.com.br

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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