Prazeres da mesa

Mudar é necessário

Por: Prazeres Da Mesa | 12.nov.2014

Nos últimos quarenta anos, o sistema econômico mundial fez com que as categorias de pensamento próprias do capitalismo industrial se tornassem parte integrante das práticas agrícolas, em todas as regiões do mundo. A revolução verde da década de 1960 introduziu, na agricultura, o uso de máquinas cada vez maiores e eficientes que, por um lado, conseguiram aumentar o rendimento, tornando muito mais leve o trabalho dos agricultores, mas, por outro, introduziram economias de escala e técnicas produtivas adequadas sobretudo para as monoculturas intensivas.

Este processo não envolveu apenas a produção agrícola, mas também a produção animal. As criações se tornaram cada vez mais concentradas, com um número de animais cada vez maior em espaços cada vez menores. Os abatedouros foram se transformando em cadeias de montagem da morte, onde o único critério de avaliação é o número de cabeças abatidas por unidade de tempo.

Não podemos continuar assim. Se não mudarmos, no planeta, a espécie humana não vai ter futuro. E a mudança deve partir, antes de tudo, das nossas consciências. Não é aceitável comer carne produzida com animais que nunca deram um passo em toda a sua vida; não é aceitável comer queijos produzidos com o leite de animais obrigados a tomar antibióticos, porque o estresse que sofrem durante a sua vida, torna-os extremamente vulneráveis a doenças e infecções; não é aceitável que os animais de corte viajem durante horas (ou até dias), em condições de estresse elevado, até o abatedouro final. Não podemos, enfim, despreocupar-nos da forma de produção daquilo que temos em nosso prato. Isto vale para tudo, mas mais ainda quando, por trás da nossa comida, há a vida de animais que experimentam dor, estresse, medo durante toda a sua curta existência.

Há poucos meses, o Slow Food publicou um documento, no qual esclarece a própria posição em matéria de bem-estar animal, sublinhando como isto não pode ser mais considerado um algo a mais, um mero enfeite de todas as avaliações de tipo econômico e produtivo. Se queremos que o nosso alimento seja realmente bom, limpo e justo, precisamos cuidar do bem-estar dos animais, sobretudo daqueles que serão abatidos para serem comidos. O Slow Food aceitou o desafio e comprometeu-se para, em breve, revisar todos os protocolos de produção das Fortalezas sobre as criações, para garantir o respeito das boas práticas para o bem-estar animal, promovendo atividades educacionais sobre o bem-estar dos animais de criação e o consumo de carne (tentando conscientizar os consumidores, para que comam menos carne e para que escolham com mais atenção a origem, e favorecendo formas de criação extensiva), e apoiando sistemas mais transparentes e claros de rotulagem das carnes.

Finalizando, se não lutarmos por uma criação que se preocupe também com o bem-estar animal, os nossos alimentos não poderão ser bons, limpos ou justos. Cabe a nós tentarmos mudar o estado das coisas, cabe a nós exigirmos todas as informações que ainda podem ajudar a praticar escolhas conscientes e responsáveis. Devolver valor ao alimento passa sempre, e sobretudo, pelo conhecimento.

Carlo Petrini_pb_site

*É sociólogo, autor de livros e fundador do Movimento Internacional Slow Food

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