Prazeres da mesa

Na porta da cozinha, não

Por: Prazeres Da Mesa | 15.jan.2016

Nunca entendi a geografia das mesas nos restaurantes.

Sei que os garçons são divididos por zonas de atendimento que compreendem um número determinado de mesas, mas não compreendo por quê, podendo colocar o cliente em uma mesa melhor, decidem instalar em uma pior.

E não sei, também, como tem gente que não reclama.

Concordo que em algumas ocasiões o restaurante está tão lotado que sentar-se, simplesmente, é quase como atingir o Olimpo. Mas não é de restaurantes lotados que vive o circuito gastronômico.

Vou a um restaurante espanhol para beliscar tapas, em um encontro que, pretendo, seja gostoso, descontraído… Quando chego ao restaurante, encontro a pessoa com quem vou estar e, surpresa, ela encontra-se instalada bem no meio do salão. Ao redor desta mesa, muitas outras vazias.

Pergunto: mas vamos ficar aqui, no centro “do palco”?

Nem notei… ouço como resposta.

Mas eu notei e não gostei.

Peço licença, chamo o garçom e solicito mudar de mesa. O sujeito dá de ombros, não pergunta o motivo do meu incômodo nem se importa e apenas nos transfere. Minha companhia acha que estou arrumando confusão, que era só abstrair. Mas não abstraio. Para mim, sair de casa exige uma certa estratégia, deslocar-me por São Paulo em dia de chuva e congestionamento não é tarefa das mais fáceis. Penso que não seria justo ficar mal alocada em uma mesa ruim para, depois, pagar exatamente como quem está nas gostosinhas e aconchegantes cadeiras dos cantinhos estrategicamente iluminados do restaurante.

E, quer saber? A noite, que deveria ser toda boa, já não começa bem.

Se toda essa história está soando desagradável, vou encerrar com mais dois episódios de que fui protagonista recentemente, não aqui, mas na terra do tio Sam.

Por lá, a plaquinha “Wait to be seat” é espécie de 11º mandamento. Pois entro no estabelecimento e espero conforme me ordenam.

Na primeira oportunidade, a garçonete nos coloca em uma mesa a poucos metros da porta do banheiro. Nem sento e aviso que aquela não me interessa. A mocinha torce a boca, me faz esperar mais 15 minutos até que, enfim, o gerente se apresenta, pede desculpas e me destina outra mesa, uma das que considero melhores do salão. Penso que vou pagar 50 dólares por um prato… mas vou desfrutar da minha refeição e das minhas companhias bem feliz. Assim acontece, em um almoço preguiçoso, desfrutado à mesa ampla que nos acolheu.

Na segunda ocasião, o restaurante segue a linha american style, em que o jovem garçom nos oferece uma mesa chanfrada, de quina, literalmente em uma quebrada do restaurante.  Penso que ali nem deveriam sentar os clientes e, prevendo os esbarrões, declino, sorrio pra ele e já aponto uma mesa próxima: pode ser aquela?, pergunto em inglês. Claro, sem problemas, me responde em bom português, o garçom era brasileiro.

E, um mês de mesas tortas e mal dispostas depois, já sei: vou continuar saindo para comer em restaurantes com meus amigos, minha família, com os meus queridos. Mas não vou me calar. Porta de cozinha, porta de banheiro, área de serviço… nada disso é lugar para servir comida ao cliente.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

Colunas recentes

Colunas