Prazeres da mesa

Não me intriguem com São Paulo

Por: Prazeres Da Mesa | 11.dec.2015

Não foi privilégio meu, paulistana de alma e coração. Tantos como eu se habituaram a ouvir que São Paulo é o túmulo do samba, que turismo, aqui, só o de negócios, que a cidade é cinza, feia, sisuda e outras balelas proferidas por aqueles que adoram detestar essa cidade.

Nunca dei muita bola; conheço bem o mecanismo das uvas verdes, a história da raposa que, não conseguindo alcançar um cacho pendurado nas vinhas, desdenha das uvas dizendo que não as quer…afinal estão verdes.

Pois é: ou se nasce paulistano ou se é uma espécie de “estrangeiro” nessa cidade que não… não é hostil. Mas que, como uma mulher de estirpe, só se entrega a quem mostra que a merece.

Assim são muitas das incursões feitas em São Paulo. É preciso insistir, persistir e, então, desvendar os prazeres da mesa dessa cidade.

Depois de várias tentativas infrutíferas, fui, finalmente, conhecer o Eataly. Queria saber se o mega empório paulistano se assemelhava – ou se superava - àquele que havia conhecido em Nova York cinco anos antes.

Mas, como eu dizia, São Paulo não se dá facilmente só porque lhe dizem: te quero.

Na minha primeira investida ao Eataly, no dia da inauguração, o estacionamento estava fechado. Nesse momento, meu lado escritora, que mais observa do que se arrisca, falou mais alto. E parti. Voltei outras duas vezes e, assustada com a multidão na porta, recuei.

Então, um feriado. Em São Paulo, tudo parecia tranquilo e lá fomos nós, em mais uma tentativa de conhecer o mercado gourmet. De cara, boa recepção: as luzinhas de Natal estavam recém-instaladas, cercando os parapeitos, deixando mais vívidas as gôndolas… Boa primeira impressão.

E lá fomos nos perdendo entre os vinhos, as bananas, os temperos, os embutidos. Entre um e outro esbarrão – é… não estava assim tão vazio — eu fui inflando de orgulho.

Não só a loja de São Paulo é muito mais bonita, organizada e bem abastecida que a de Nova York como a nossa, aqui, da minha cidade do coração virou ponto turístico dos bons.

Em menos de dez minutos identifiquei sotaques do nosso interiorzão, também aquele monte de “esses” e “erres” do Rio de Janeiro, gritada por cariocas animadas e suas pulseiras chacoalhantes. Do outro lado, o portenho de um casal argentino e o francês de dois chefes em visita à cidade para algum evento gastronômico.

Mais me embrenhava nos corredores, com mais turistas eu me deparava.

E aquela história de que São Paulo não tem ponto turístico que preste? Pois tem. É com as nossas panelas, nossos temperos (esses que temos à venda porque à custa do nosso trabalho garimpamos pelo mundo), nossos pratos… Com tudo isso estamos laçando e ganhando o coração de gringos ou nem tanto.

Muita bateção de perna e, finalmente, nos sentamos para um cordeiro com feijão e umas lulinhas fritas na mesa partilhada com mineiros e gaúchos. Foi aí que eu me dei conta de que a má fama de São Paulo não passa… nem nunca passou, de pura intriga da oposição.

01/12
INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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