Prazeres da mesa

NASCE UMA FORTALEZA

Por: Prazeres Da Mesa | 31.may.2016

Por Flávia G. Pinho

Mel da abelha mandaçaia da Caatinga é o mais novo produto protegido pelo Slow Food

Cabeça e tórax pretos, abdome de faixas amarelas, asas cor de ferrugem. A mandaçaia, uma das abelhas nativas mais bonitas do Brasil, responsável pela produção de um mel de grande complexidade aromática, com notas de pera verde e caramelo queimado, acaba de ser abraçada pelo movimento Slow Food. A recém-fundada Fortaleza da Mandaçaia, na Bahia, tem como objetivo proteger a espécie nativa da Caatinga da série de ameaças que vem  diminuindo a população de abelhas gradativamente. “As queimadas para o comércio do carvão, o desmatamento para criação de gado e a ampliação das zonas urbanas colocam a espécie em risco”, diz Revecca Tapie, facilitadora da região Nordeste do Slow Food Brasil. “Além da ação humana, as mudanças climáticas causam estiagens prolongadas que têm agravado o problema, particularmente no semiárido brasileiro.”

Naturalmente mansa, o papel da espécie, na colmeia, é o de vigiar a entrada e proteger o ninho – mandaçaia, nome de origem indígena, significa “vigia bonita”. Como é de praxe entre as abelhas nativas, seu mel é tão precioso quanto raro. Por florada, cada colmeia não consegue produzir mais de 2 litros de mel. Bem diferente do produto comercial proveniente das abelhas africanas, sua textura é mais líquida pelo alto percentual de água – o que o faz fermentar rapidamente fora da refrigeração. Seu sabor é peculiar. De tão ácido, pode substituir o limão em algumas receitas.

Em todo o Nordeste, a criação de abelhas nativas sem ferrão é feita de forma 100% artesanal, com base nos saber e nas tradições da população. “O Brasil registra mais de 200 espécies e, até o século XIX, esse era o único mel consumido no país. A realidade mudou depois que a estrangeira Apis mellifera, conhecida como europeia, italiana ou africana, foi introduzida por aqui. Mas, até hoje, as nativas são criadas nas casas e nas roças, em cabaças, potes de barro e caixas rústicas de madeira”, conta Revecca.

Para a criação da nova Fortaleza, formou-se uma parceria entre Slow Food, Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes), pequenos produtores locais, estudantes da Escola Família Agrícola de Jaboticaba (EFA) e técnicos em agro ecologia do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Na fase de mapeamento, outras espécies foram analisadas: a jataí, a moça branca e a manduri. Mas contou pontos a favor da mandaçaia seu papel fundamental na polinização de plantas nativas da Caatinga – com cerca de 10 a 11 milímetros, ela costuma fazer seu ninho no oco dos troncos do licuzeiro, do umbuzeiro, da umburana e da aroeira.

Uma vez criada oficialmente a Fortaleza, o objetivo do Slow Food é sensibilizar comunidades locais para o risco de extinção da mandaçaia e fortalecer a rede de meliponicultores. Uma das ações previstas é a criação de um meliponário pedagógico, no qual seja estimulada a criação das abelhas. “Como condena a retirada das colmeias de seu habitat natural, a Fortaleza vai incentivar a obtenção de colônias por meio da técnica de multiplicação induzida. Somente no caso de colônias que se encontram em área de risco será permitido seu resgate”, afirma Revecca.

A confecção de novas colmeias deverá obrigatoriamente respeitar o saber tradicional e o bem-estar das abelhas – ou seja, os materiais devem vir de fontes renováveis e preferencialmente orgânicos, como madeira certificada e/ou reutilizada. “A área de abrangência da Fortaleza da Mandaçaia visa fortalecer a área geográfica do produto e suas particularidades organolépticas. Mas, trata-se de um projeto-piloto que não visa se restringir a um só território. A intenção é ampliar a rede de meliponicultores em todo o bioma da Caatinga.”

Você sabia?

  • Para obter uma boa produção, é preciso proporcionar conforto térmico para as abelhas sem ferrão – o meliponário deve reproduzir o ambiente dos troncos das árvores, no qual há temperatura amena até mesmo no verão.
  • Em regiões quentes como a Caatinga, as abelhas recolhem água para refrigerar o ninho, o que evita a perda dos ovos e das larvas jovens. Por isso, é importante preservar uma faixa de 20 metros de árvores ao redor do meliponário.

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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