Prazeres da mesa

Naturebas brasileiros

Por: Prazeres Da Mesa | 28.jan.2016

Feira em São Paulo mostra que produção de vinhos com uvas de cultivo orgânico e com conceitos biodinâmico e natural cresce no Brasil

A onda de vinhos naturebas, que não gostam de produtos químicos e cujo conceito engloba desde os elaborados apenas com uvas de cultivo orgânico, até os biodinâmicos e naturais, parece que só cresce. Cresce e dá frutos, eu diria, pois no Brasil a onda anda forte e alguns produtores conseguiram impressionar os estrangeiros que estiveram presentes na terceira edição da Feira de Vinhos Naturebas da Enoteca Saint Vin Saint, em São Paulo.

Poucos sabem, mas o primeiro vinho orgânico brasileiro é do Juan Carrau (Velho do Museu), que começou a converter seus vinhedos em 1994. Seu Gewürztraminer é de babar, e o tinto de Cabernet, idem. Depois, em 2002, os irmãos Escher (Vítor e Álvaro) fizeram um vinho radical em Garopaba, com uvas Peverella do Rio Grande do Sul, o Cave Ouvidor, que hoje se chama Era dos Ventos e não é mais de Garopaba. Agora o Era dos Ventos é de Álvaro Escher, Luiz Henrique Zanini e Pedro Hermeto e tem em seu Peverella um dos ícones brasileiros, embora haja outros de outras castas maravilhosos também. Os irmãos Escher, diga-se, foram os primeiros a fazer um vinho natural, sem nenhuma adição de SO2.

Marco Danielle, do Atelier Tormentas, é um fotógrafo que foi estudar na França e conheceu Phillippe Pacalet e foi literalmente fisgado por Baco, para sorte nossa, e produz maravilhas. Seu Fvlvia Pinot Noir é de babar e já deixou para trás às cegas ícones da Bourgogne como Nuits Saint Georges e Gevrey Chambertin. Foi interessante, pois no início muitos críticos famosos se recusavam a aceitar e nem comentavam o assunto. Diverti-me muito com isso. Hoje fico feliz em saber que se alguém quer comprar uma caixa de Fvlvia Pinot Noir tem necessariamente que comprar cinco outros vinhos do produtor e apenas uma garrafa do FVLVIA Pinot Noir. Ele faz aqui o que o Romanée-Conti demorou séculos para fazer.

Na Feira de Naturebas da Enoteca Saint Vin Saint, referência no tema de vinhos puros, pude me deliciar com outros produtores que você precisa conhecer. Como Domínio Vicari, cujo vinho arrancou elogios de ninguém menos que Josko Gravner, o inventor do vinho laranja, da Vinha da Loucura, de Eduardo Zenker, hoje certamente o mais inventivo e mais livre produtor brasileiro, completamente natural e com rótulos de muita personalidade. Outro nome é Marina Santos, com seus Vinha Unna, totalmente biodinâmicos – uma enóloga que você deve anotar o nome, pois vai dar o que falar. Seu Cabernet Franc parece com os do Valle do Loire, com muito frescor e profundidade. Marina está inclusive convertendo vinhedos de pequenos proprietários para o biodinamismo e é ainda a presidente da primeira Cooperativa Brasileira de Produtores de Vinho Natural, Naturvin.

Além deles, merece destaque o extraordinário Entre Vilas, de São Bento do Sapucaí, SP; os vinhos de Zulmir De Lucca, de Farroupilha, vinhedos biodinâmicos e de castas de seu primo uruguaio Reinaldo De Lucca, um dos grandes do Uruguai. Destacaria por último a Vinhetica, um projeto do jovem francês Gaspar Desurmont, na Campanha Gaúcha, que já tem dois rótulos, um rosé e um tinto, e acaba de lançar um delicioso espumante.Prestigie os naturebas brasileiros! Você vai se surpreender. Saúde.

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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