Prazeres da mesa

No Japão com o timão

Um pouco de enogastronomia japonesa depois de um jogo memorável

Por: | 29.apr.2013

Certa vez me perguntaram sobre minhas preferências quanto a lugares para fazer turismo. Respondi sem precisar pensar: turismo para mim é olhar parreiras e muita conversa com (bons) produtores de vinhos. Reconheço que é um tanto limitado, mas é uma questão de priorizar o que se gosta. É bem verdade que, se na região vinícola houver algum museu interessante e uma sala de concertos com bons programas, eu, sem dúvida, iria também. Mas não seria muito mais que isso.
Há um bom tempo que assim tem sido. Quebrei essa sequência em dezembro passado por um motivo superior. Fui ao Japão ver o Timão ser campeão – tudo rimou, não poderia ser diferente. E não me desviei um segundo desse propósito. A rigor, não consegui, estava mentalmente concentrado. Só na segunda-feira, um dia depois do jogo, deu para relaxar e, com apenas mais dois dias livres, tentar aproveitar – em ritmo de comemoração – o que a rica enogastronomia japonesa poderia me oferecer em tão pouco tempo.
Já tinha visitado o Japão em 2006, como jurado do Japan Wine Challenge, e cheguei, com companheiros de júri, a jantar em certas casas bem recomendadas, mas confesso que, depois de passar o dia inteiro avaliando vinhos, ninguém tinha vontade de testar harmonizações. Ainda assim, mesmo sem querer, uma ficou na lembrança, tanto que cheguei a relacioná-la entre as melhores do ano, como sempre faço nas edições de dezembro da revista. Foi um divino menu degustação de tempura, escoltado por um vinho estrangeiro, o Riesling alemão Berg Rottland 1999, de Georg Breuer, da região do Rheingau. Dessa vez, embora sem o mesmo brilho, não fez feio um branco local, o Grace Gris de Koshu 2010, elaborado com a uva nativa e emblemática do país, a Koshu, pela Grace, uma das mais conceituadas – são muito poucas – vinícolas japonesas. É um vinho leve, com bom frescor e baixa graduação alcoólica, características básicas para acompanhar o prato. Necessitaria de um pouco mais de estrutura para formar par (quase) perfeito.
Pelo que expus, não poderia considerar expressivo meu contato com os restaurantes locais e não seria dessa vez que eu conseguiria corrigir essa falha. De qualquer forma, no que se refere à comida japonesa em si, não é tão grave, afinal estamos muito bem servidos de restaurantes japoneses no Brasil. Assim, resolvi dedicar o pouco tempo que sobrava para observar quem é da terra, abordando seus hábitos na hora de beber e comer e ver até onde as preferências locais têm razão de ser quando se fala em compatibilização de verdade.
Nenhuma surpresa. Aparentemente, nas casas e nos bares com comida pouco sofisticada – izakayas – frequentados por quem mora lá mesmo, o que sai de fato é muita cerveja. E saquê. No fundo, não é diferente daqui. Para não ser preconceituoso, testei várias cervejas com sushi e sashimi, e estou convencido de que não combinam. Vale, e não tenho nada contra, para passar momentos descontraídos com os amigos e jogar conversa fora. Com o saquê é diferente, em particular com sushi, pela afinidade de textura e sabor – o leve adocicado de ambos. Mas sem colocar sal na beirada daquela tigelinha quadrada, o que vemos por aqui. Isso lá não existe, como não existem, aliás, as citadas tigelinhas. Eles servem em copinhos de cerâmica. 

* Jorge Lucki é um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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