Prazeres da mesa

Nova geração de argentinos

Por: Prazeres Da Mesa | 2.apr.2015

Adegas inéditas, muitas com a participação de filhos de produtores e até netos de enólogos, aportam no país após o mais baixo volume de importação dos últimos anos

A Importadora Premium apresentou recentemente, em São Paulo, goles que acabaram de se incorporar a seu catálogo. As novidades são todas argentinas e muito bem-vindas, uma vez que nossos vizinhos, apesar de se manterem em segundo lugar no ranking de vinhos importados (atrás do Chile, o eterno líder), caíram no primeiro semestre do ano para o mais baixo volume dos últimos anos: 18% do total das garrafas que aportaram no país.

Além da chegada dos goles platinos, outra boa notícia é que eles marcam também a entrada em cena de novas gerações de winemakers, filhos de produtores ou enólogos (e até netos deles), um time jovem para continuar dando impulso ao universo etílico argentino, que (se a economia melhorar por lá e ajudar, espero) tem perfil e qualidade para conquistar espaço por aqui (e no resto do planeta).

No desembarque da Premium se mesclam adegas inéditas com o retorno de velhos conhecidos. Houve destaques nas duas alas, como os que aparecem a seguir.

Ricardo Santos-Bodega Tercos
Arquiteto, Ricardo Santos mergulhou no mundo do vinho ao decidir na década de 1970 abandonar a prancheta para trabalhar na Norton, vinícola de ponta argentina, propriedade de sua família. Quando a empresa foi vendida, ele iniciou voo solo lançando um tinto que conseguiu renome: El Malbec de Ricardo Santos. A ele se adicionaram outros rubros e brancos assinados hoje por seu filho, o enólogo Patricio Santos.

Tercos (obstinados) é precisamente um projeto de Patricio Santos com o irmão Pedro, destinado a produzir os próprios vinhos. A adega dos irmãos, construída em 2005, está em Maipú, ao sul da cidade de Mendoza. Ali são elaborados também os goles do pai.

Mesmo com fama pelos Malbec, entre os Ricardo Santos chamou atenção nas provas um branco, o Semillon 2013, de bom corpo, marcado por frutas frescas e secas, com final que deixa a gente pensando no próximo gole (89/100 pontos, R$ 76,01).

Na ala dos Tercos brilharam os tintos, como um bom Bonarda e um Malbec idem, mas meu preferido foi um Sangiovese, cepa rara no repertório sul-americano, um vinho interessante combinando tons balsâmicos e de frutas vermelhas, saboroso e redondo em boca (88/100, R$ 54,05).

Fabre Montmayou
Há tempo que a casa dos franceses Diane e Hervé Joyeaux Fabre marca presença no Brasil.

A adega nasceu em 1992 em Vistalba, sul de Mendoza, onde possui cerca de 90 hectares de vinhedos e abriu uma segunda frente na Província de Rio Negro, na Patagônia. O jovem Matias Riccitelli, filho do experiente Jorge Riccitelli, enólogo da Norton, é o responsável pelos vinhos da casa.

No painel da Patagônia dois destaques. Um, o Barrel Selection Malbec 2012, com 12 meses de estágio em madeira, mostrando o perfil elegante dos rubros daquele canto, macio, com taninos finos, muito frutado. No de Mendoza para o Reserva Merlot, outro 2012 intenso nas frutas vermelhas, untuoso e com boa textura, prazeroso e persistente (os dois 89/100, R$ 64,19).

Revancha
Novo empreendimento em Mendoza, de Roberto de la Mota, filho de Raul de la Mota (1918-2009), grande craque da enologia argentina responsável por iniciar a modernização dos vinhos do país. Roberto começou sua carreira com o pai na Weinert, depois na Chandon, sendo enólogo de Terrazas e coautor do ícone da firma gaulesa, o Cheval des Andes, até passar a tocar, com outros sócios, a própria adega, a Mendel. Agora, partiu para um novo projeto, a Revancha Vinos, junto com o filho Rodrigo, que estuda agronomia – primeiro passo, talvez, para o nascimento da terceira geração de enólogos da família.

Menção para dois Malbec, ambos bem estruturados. O Revancha 2012 mostrou bom corpo e taninos firmes rodeando frutas maduras (ameixas pretas) que dominam o final (88/100, R$ 87,84). O segundo, La Primeira Revancha 2011, é mais elegante e sedoso, com fruta temperada por toques mentolados de cedro e especiaria e uma bela persistência (90/100, R$ 135,13).

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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