Prazeres da mesa

O clube da carignan

Um grupo de vinícolas chilenas se une para fazer grandes vinhos com uma uva que estava meio esquecida

Por: Prazeres Da Mesa | 14.dec.2010

Localizado a cerca de 300 quilômetros ao sul da cidade de Santiago, o Vale do Maule abriga a maior extensão de vinhedos do Chile. A faixa de terra, que parte do pé da Cordilheira no extremo nordeste e chega às proximidades do Pacífico no extremo oposto, conta com mais de 30.000 hectares de vinhas (quase 30% do total plantado com uvas viníferas no país). O elenco de cepas conta, sem dúvida, com clássicos do país, como a Cabernet Sauvignon, que consagrou os goles chilenos no cenário mundial, e também estrelas mais recentes, caso da Carménère e da Syrah, ambas em plena ascensão no firmamento etílico chileno.

Mas tão importante quanto tudo isso (ou até mais, para um lugar em alta) é que o Maule está descortinando outra protagonista que pode levar novos rubros ao estrelato: a uva Carignan. 

O plantio da variedade – que muitos acreditam ser nativa da Espanha, onde é chamada Cariñena, e que ocupa amplo espaço no sul da França – foi incentivado no Maule no fim da primeira metade do século passado. O objetivo era simples: ajudar a dar acidez, cor e estrutura aos vinhos comuns elaborados com a País, uva introduzida pelos colonizadores espanhóis. Uma boa noticia é que parte daquelas velhas parreiras – plantadas “en cabeza” ou em vaso, sem arames de condução, que parecem mãos de grossos pulsos talhadas pelo tempo e pelas colheitas, com seus fortes  dedos tortos erguendo-se no ar – ainda está lá. São pouco mais de 500 hectares de vinhedos, alguns com 60 anos de idade.

Anos atrás, o primeiro a me falar com entusiasmo dessas vinhas foi o enólogo Pablo Morandé. Foi também um dos primeiros a aproveitar o potencial delas criando o Edición Limitada, um tremendo Carignan, entre os grandes tintos do país. Outra boa-nova veio em julho, quando visitei a região. Durante uma parada em Cauquenes, no canto sudoeste do Vale, uma apresentação trouxe à tona uma iniciativa que pode dar maior impulso ao resgate da variedade: a criação do Clube da Carignan.

O projeto nasceu cerca de um ano atrás, inspirado por Andrés Sanchez, enólogo da Gillmore (outra adega pioneira que lançou em 1995 um Carignan top), e Eduardo Brethauer, jornalista especializado em vinhos, hoje um dos editores da revista Vitis Magazine. O clube reúne 14 adegas (Odjfell, De Martino, Torres, Valdivieso, Undurraga, Meli, Bravado Wines, Santa Carolina, Via Wines, Garage Wine, Canepa, Covica e, naturalmente, Gillmore e Morandé), decididas a elaborar o Carignan premium, de classe mundial, seguindo algumas regras a respeito da qualidade e perfil dos vinhos.

Os goles do clube devem ser elaborados com uvas oriundas de vinhedos com pelo menos 30 anos de idade, plantados em vasos e cultivados sem o uso de irrigação. Os vinhos precisam ter também um mínimo de 65% de Carignan em sua fórmula e devem amadurecer dois anos antes de chegar ao mercado.

As ações com a cepa já tiveram alguns pontos positivos, especialmente para os pequenos agricultores: estima-se que o preço pago por ela tenha subido cerca de dez vezes na região. Para frisar a qualidade do vinho, várias adegas do clube serviram seus Carignan, que comento a seguir (as adegas que estão no Brasil têm o importador indicado).

Las Lomas Gran Reserva 2007 – A marca é da Cooperativa Agrícola Vitivinícola de Cauquenes (Covica). O vinho, que passou oito meses em barricas de carvalho americano, mostrou um pouco o lado tânico da cepa, mas bem rodeado de fruta (amoras, cereja) e com boa acidez (88/100).

Valdivieso Eclat 2007 – Corte de Carignan (65%), Mourvèdre (25%) e Syrah, tem bom conteúdo de frutas vermelhas junto a tons de tostado e especiaria, marcando um paladar com taninos firmes (89/100). Bruck

Santa Carolina Specialties Dry Farming 2008 – Oriundo de vinhedos com cerca de 60 anos de idade, passou dez meses em barricas de carvalho francês. Tem boa textura e sabor em que aparecem as frutas vermelhas junto a baunilha e chocolate, dando complexidade (89/100). Casa Flora

Undurraga T.H. 2008 – Dois vinhedos, um de 60 anos de Cauquenes e outro de 40 de Loncomilla, ao norte, moldam esse vinho amadurecido em carvalho francês e americano. Mescla fruta e toques de couro num paladar levemente tânico, mas saboroso (89/100). Mr. Man

De Martino El Leon 2007 – Bom exemplar do time do enólogo Marcelo Retamal. De todos os provados foi o que mais pendeu para o estilo arrasa-quarteirão. Estruturado em boca, exibiu fruta que lembra cerejas e ameixas (88/100). Decanter

De Martino La Aguada 2008 – Igualmente denso, porém mais acessível e amável que o anterior, mostrou taninos menos marcantes e bom conteúdo de fruta, junto a tons de resina e eucalipto (89/100). Decanter 

Oveja Negra Single Vineyard 2008 – O rubro da Via Wines, fruto de um vinhedo de 50 anos de idade, foi um dos mais redondos que provei. Amadurecido em carvalho francês (12 meses), mostra bela textura, fruta com boa concentração bem temperada com madeira, conjunto que marca o final (90/100).

Gillmore Hacedor de Mundos 2007 – Criador do clube e do vinho. O enólogo Andrés Sanchez serviu o melhor vinho, elaborado com uvas Cargnan de vinhas próprias com 60 anos de idade. Rico, com taninos finos, untuoso, mostrou sabor amplo e persistente, unindo frutas vermelhas, toques balsâmicos e de eucalipto. Aliás, outra bela amostra de que, com a categoria habitual, os chilenos podem ter descoberto um novo tesouro para adicionar a seu portfólio. (91/100), Ana Import

Jorge Carrara visitou Chile a convite de Catad´Or e de InvestChile, da Corporação de Fomento da Produção (CORFO)

* Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S.Paulo e do site Basilico.

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

Colunas recentes

Colunas