Prazeres da mesa

O embate Napa e Bordeaux  

Por: Prazeres Da Mesa | 9.sep.2015

No confronto entre grandes de Bordeaux e do Napa Valley, a região americana mostra mais agilidade em busca de soluções e melhora de seus vinhos

É revelador quando uma cultura encontra a outra. Sinto que eu aprendo mais sobre uma região quando a vejo pelos olhos de alguém vindo de fora. Por isso, sempre me encanta a forma como os franceses do vinho veem seus pares nos outros lugares do mundo. Um dos melhores exemplos disso é o que os embaixadores dos Bordeaux Premier Crus têm a dizer sobre seus maiores concorrentes, os produtores de Cabernet no alto de Napa Valley. Este não é o lugar para se ir em busca das grandes quantias de dinheiro que foram despejadas em Napa Valley ao longo da última década mais ou menos, tampouco procurar monumentos arquitetônicos ou turismo efervescente. Eu estava mais interessada na qualidade do vinho. Nem Denis Malbec (que já trabalhou em Château Latour e que agora produz seu próprio vinho, além de trabalhar como consultor de vinhos), tampouco Philippe Bascaules (que saiu de Château Margaux para trabalhar em Inglenook de Francis Ford Coppola em 2011) são fãs do estilo super maduro do Cabernet de Napa Valley e foi interessante aprender suas táticas para produzir vinhos mais elegantes.

Recém chegado ao Napa Phillipe Bascaules, que era o segundo enólogo do Château Margaux, abaixo de Paul Pontallier, já está celebrando o quão mais fácil é efetuar mudanças em Napa Valley em comparação a Bordeaux. “Em Bordeaux, é difícil mudar as coisas até mesmo para um profissional do calibre de Paul Pontallier, porque a equipe e tradição têm um peso muito grande. Aqui, as pessoas estão muito mais abertas e dispostas a mudanças. Claro que é uma boa tática de defesa Bordeaux caminhar tão devagar, mas eu realmente aprecio a eficiência e, em particular, o entusiasmo das pessoas em Napa Valley. É mais emocionante e mais fácil trabalhar aqui do que em Bordeaux. Sinto-me motivado com objetivos bem definidos”.

Na verdade, ele foi quase esmagado pelo ritmo que Coppola queria que ele impusesse ao refinar os vinhos do Inglenook. “Tive que explicar que eu não tenho todas as respostas. Precisei primeiro observar para estabelecer quais seriam exatamente os desafios. ”

Como seria de se esperar nos dias de hoje, sua verdadeira preocupação é o vinhedo. Uma de suas primeiras inovações foi substituir as caixas de meia tonelada por pequenas caixas nas quais as uvas colhidas deveriam ser armazenadas para minimizar o perigo das uvas serem esmagadas antes de chegarem à vinícola. E então, ele teve que entender a famosa e célebre força de trabalho latina de Napa Valley. Sua admiração e entusiasmo por eles é enorme (“eles são muito receptivos; eu digo a eles que eles são a parte mais importante da adega”), mas demorou quase dois anos para que Bauscaules descobrisse a melhor maneira de canalizar tudo isso para a melhoria da qualidade do vinho.

Quando ele chegou, a equipe de colheita nos 235 acres de Inglenook era remunerada por tonelada, como é a regra em Napa Valley. Ele ficou impressionado com o quão rápido eles colhiam as uvas, rapidez que ele nunca tinha visto em Bordeaux. A rapidez era tamanha que não dava tempo de se fazer qualquer avaliação quanto aos cachos que deveriam ser deixados na videira, isso sem falar no volume de folhas e gravetos que eram despachados para a adega junto com as uvas. “Em 2013 eu consegui introduzir a prática da remuneração por hora, mas a partir desse momento, o ritmo da colheita passou a ficar lento demais! Então eu tive que pedir aos trabalhadores para acelerar um pouco. Em 2014, conseguimos trabalhar na velocidade adequada, contratei mais algumas pessoas e, agora, o equilíbrio parece perfeito. Implementamos um sistema de bônus aos trabalhadores para recompensar a qualidade das uvas colhidas. O próximo passo será o pagamento de um bônus com base no trabalho bem executado ao longo do ano e não apenas na qualidade das uvas colhidas. Esse bônus será pago imediatamente após a colheita, porque muitos dos trabalhadores voltam para o México por um período de tempo depois de trabalhar no vinhedo. Tenho certeza de que é muito melhor ter uma equipe permanente no vinhedo”.

Perguntei a ele se sentia saudades da França. “Eu sinto falta dos amigos”, respondeu ele, “mas não do país em si. A comida daqui é muito boa, inclusive. Além disso, consigo achar facilmente tudo o que eu gosto.” Eu perguntei quantas vezes por semana ele bebia Bordeaux, e pela primeira vez em uma hora de entrevista, ele riu e balançou a cabeça. “Eu não bebo mais Bordeaux. Tenho certeza de que meu paladar está mudando, o que faz parte do meu trabalho. Não tenho medo de mudar. Não tenho a menor intenção de produzir Bordeaux aqui. Inglenook deve e vai produzir um vinho californiano. Tenho certeza de que já estou mais me acostumando à intensidade e ao álcool”.

Quis saber também se ele conhecia os outros franceses que trabalhavam em Napa Valley, como Denis Malbec, Claude Blankiet, a equipe da Araujo que foi assumida pelo proprietário do Château Latour em 2013, ou Stéphane Derenoncourt que tem vários clientes em Napa Valley, incluindo Inglenook. “Eu tento conhecer pessoas americanas”, disse ele com firmeza. “No começo, eu estava um pouco relutante em conhecer muitos produtores. Queria manter minha visão fresca sobre as coisas. Mas agora é importante eu compartilhar e trocar ideias que tenho sobre a elaboração de vinhos mais frescos. Quero introduzir, por exemplo, a prática da clarificação. As pessoas aqui não clarificam seus vinhos, porque buscam a concentração máxima, mas não acho que isso seja apropriado. Ele defende a ideia de que os vinhos das safras de 2012 e 2013 sejam clarificados com clara de ovo (albumina), e que as videiras sejam podadas e colhidas muito mais cedo do que a regra em Napa Valley. Ele também acredita que os vinhos ficariam muito menos concentrados se os tanques de fermentação fossem mais altos.

Denis Malbec evita o tempo de suspensão propositalmente prolongado, prática que se tornou tão em voga nos vinhedos de Napa Valley, e sustenta que a maior diferença entre eles e os seus pares em Bordeaux é o solo. Ele considera que os solos como aqueles da propriedade Kapcsandy em Yountville, onde presta consultoria, são mais fáceis de gerenciar. Ele fez uso das lições aprendidas com seu avô no Château Latour para minimizar os efeitos negativos da inusual alta taxa de precipitação na safra de 2011. A julgar pelos vinhos, sua experiência em Bordeaux já trouxe dividendos.

Jancis Robinson_site

*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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