Prazeres da mesa

O INTRUSO

Por: Prazeres Da Mesa | 5.may.2017

Saindo da academia, cruzo com mais de dez pessoas até a porta do estabelecimento. Todas estão com o celular na mão e os olhos na telinha, inclusive alguns dos que correm na esteira ergométrica. Vou jantar e, no restaurante, algumas mesas são ocupadas por famílias. Naquelas em que há crianças com menos de 10 anos, algum equipamento eletrônico (tablet, celular… ) também ocupa espaço à mesa.

A mesa que está exatamente ao lado da minha fica vazia por alguns minutos, até a chegada de um casal acompanhado por uma garotinha de 4 ou 5 anos. Antes mesmo que ela se acomode na cadeirona alta destinada às crianças, o pai trata de posicionar o celular que estará em ação ao longo de todo o jantar. A criança não vai comer. Não vai comer nada. Também não vai interagir – nem o pai e nem a mãe conversam com ela, mas conversam animadamente entre si.

coluna ines de castroA garota está ali simplesmente por estar, como um apêndice figurativo do casal. E, para que não incomode, não atrapalhe, não choramingue, não peça nada, dão-lhe o celular. Olhinhos fixos na tela é como ela vai permanecer por mais de uma hora. Na companhia deste intruso de almoços, jantares, lanches, rodadas de pizza, chás da tarde e quaisquer outras refeições de que poderíamos desfrutar na companhia de quem a gente gosta, ama, aprecia ou desejaria estar ao lado. Só que não…

Impossível deixar de observar a cena, próximas que são as mesas neste restaurante. E não tenho como não sentir compaixão por aquela criança. Paixão é palavra que tem origem no termo grego pathos, e que quer dizer dor. Compaixão seria, portanto, a capacidade de sentir a dor que um outro sente. E eu sinto por aquela menininha muita compaixão, porque sei que – embora seus pais não se deem conta – ela se percebe excluída daquela família.

É esse o espaço que muitas crianças vêm ocupando nos núcleos familiares. Recebem presentes um dia sim, no outro também. Viajam pelo mundo antes de completar a maioridade. Frequentam restaurantes caros, bons, modernos… mas não provam o que se oferece ali, salvo um prato de batatinhas, um macarrãozinho sem molho, nuggets que pais e mães solicitam aos garçons, pedido que, naturalmente, os restaurantes estão preparados para atender.

Assim perdem-se oportunidades preciosas. De construir, à mesa, uma base forte de relacionamento. De ensinar aos filhos um pouco de cultura gastronômica. E, ainda que minimamente, mostrar afeto por meio do oferecimento do alimento. Tempos tristes esses em que, ao invés de desfrutar da companhia um do outro, temos dado preferência à fala fria e impessoal da tecnologia que nos protege e aliena.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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