Prazeres da mesa

O mar da minha infância

Por: Prazeres Da Mesa | 31.may.2016

Compartilhar receitas de infância é manter viva a tradição

Guga RochaNa minha infância passávamos os finais de semana na praia de Marceneiro, no litoral norte de Alagoas. Uma região de extrema habitada. Havia lá, uma pequena comunidade caiçara, com cerca de 30 casinhas próximas à “pista” e uma dessas casinhas mais próxima à praia era nossa. Praia essa que me ensinou a amar o oceano e suas riquezas.

Acordava ao cantar do galo, comia cuscuz de coco, tapioca, queijo do sertão, banana-da-terra frita, pegava meu arpão, um óculos de mergulho velho e partia para o mar pescar lagostins, polvo, ouriço, maçunim e uma enormidade de peixinhos de coral deliciosos e coloridos.  Voltava quando via minha mãe aos berros na beira d’àgua a dizer que já estava na hora do almoço. Cozinhávamos todas as maravilhas que de forma tão graciosa o mar oferece a quem nele mergulha.

Foi uma época em que convivi muito com famílias que lidam  com o mar e suas tradições. Fazia a festa com sua comida, brincava com seus filhos, dançava suas danças e, aqui pra nós, namorei mais de um ano com a linda filha de um pescador de São Miguel dos milagres de cabelos negros, olhos amendoados e que gostava muito de doces. Doces esses que sua mãe preparava e que sempre foram mais um motivo para minha presença continua naquela casa simples e mágica.

Como disse Djavan “…todo cara que não tem eira nem beira, no fundo do quintal tem um pé de macaxeira…”, e assim era a vida por essas bandas, quintais repletos de macaxeira, bananas, fruta-pão e nos frontais das palhoças estendiam-se esteiras onde peixes eram secos ao sol. As beatas sentadas nos portais a falar da vida alheia, os pescadores contando causos lubrificados por cachaça e as crianças na praia ou jogando bola por entre os coqueiros.

Então, pergunto aos nobres colegas: “O que estamos fazendo de verdade para manter as comunidades tradicionais? Quais esforços pessoais e governamentais são realmente efetivos? Estamos perdendo essas frágeis joias de cultura popular… dança do coco, ciranda, reisado não são mais bailados e ouvidos como antes, os peixes secos deliciosos e riquíssimos em umami cada dia menos vistos e os corais cada dia mais cheios de plástico de margarina e indiferença”.

“O que nós cozinheiros podemos fazer? Não é essa nossa função alimentar? Então, que nutramos a tradição também!”

Quero que nossos filhos se lambuzem de umbu, enquanto ouvem uma rabeca bem tocada à luz da Lua, no mar da minha infância. Separei para vocês três receitas da Praia dos Milagres que me lembram esse período da minha vida e os sabores caiçaras. Esses preparos simples são minha contribuição humilde, meu testemunho dessas tradições. Compartilhando com vocês, divido os sabores que estão tão impregnados em minha lembrança e meu coração. Se cada cozinheiro do Brasil dividir três receitas de sua infância  não esqueceremos quem somos como povo.

01/12

Confira as receitas de pirão de cabeça de peixe, maxixada ao coco com camarõezinhos e doce de banana caseira.

O chef Guga Rocha

Guga Rocha é apresentador do Homens Gourmet, da Fox Life

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