Prazeres da mesa

O prazer das verticais

Provar o mesmo vinho de safras diversas é sempre uma oportunidade de conferir como as mudanças climáticas e a idade dos vinhedos fazem a diferença

Por: Prazeres Da Mesa | 17.nov.2008

(*) POR JORGE CARRARA

O clima que envolve uma ou outra colheita moldando as uvas, a idade dos vinhedos ou um novo enólogo na adega são alguns dos muitíssimos elementos que se combinam para tornar um vinho maravilhosamente diverso a cada safra. As degustações verticais – os diferentes anos de um mesmo rótulo – são o momento ideal para saborear essas diferenças. A cidade de São Paulo abrigou em setembro duas delas dedicadas a tintos topo de gama de duas casas sul-americanas: a chilena Seña e a Bodega del Fin del Mundo, da Argentina (os vinhos disponíveis no Brasil têm preço e importador indicados).

Membro do time de ponta do Chile, Seña nasceu em 1995 da associação da Viña Errazuriz e a vinícola Robert Mondavi, da Califórnia (hoje, após a venda da Mondavi, a firma chilena possui controle total do projeto). Seña ainda é elaborado na Errazuriz, no Vale de Aconcagua, ao norte de Santiago, mas já há planos para construir uma adega separada, também em Aconcagua, numa propriedade com mais de 40 hectares de vinhas igualmente dedicadas a ele: o Viñedo Seña.
Eduardo Chadwick, presidente da Errazuriz, apresentou as safras de 2003 a 2005, a última lançada. O Seña 2003 – Cabernet Sauvignon (52%), Merlot (40%), Carménère (6%) e Cabernet Franc – impressionou pela densidade e potência (fruto de um ano quente e seco). Geléias e frutas vermelhas, toques de eucalipto e resinas marcam seu paladar untuoso, com taninos finos, persistente (93/100).

Já o 2004 (Cabernet Sauvignon, 57%; Merlot, 35%; e Carménère, 5%; e partes iguais de Cabernet Franc, Petit Verdot e Malbec) mostrou os ingredientes atraentes do anterior, mas um tanto atenuados e fundidos num paladar mais leve, ácido e tânico – sinal de meses menos ensolarados e com algumas chuvas durante a colheita (90/100). O de 2005 (um bom ano, de maturação longa), também com base de Cabernet e Merlot, é intenso e equilibrado. Exibiu fruta deliciosa e persistente, sem a pujança do 2003, mas com forte dose de elegância (92/100, todos a R$ 348, na Expand).

A Bodega del Fin del Mundo é um projeto recente numa nova área vitivinícola da Argentina, a Província de Neuquén, no sul do país, na Patagônia. A adega estreou com a safra 2002. Quem assina os vinhos desde o início é o enólogo Marcelo Miras – um veterano daquelas bandas, que já trabalhou em Canale, na vizinha Rio Negro. Desde 2005, ele tem como consultor o (onipresente) enólogo francês Michel Rolland. O próprio Miras apresentou as safras de 2002 a 2006 do Special Blend, top da casa, um rubro que mescla Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot.

O 2002, de bom aroma e sabor (ervas aromáticas, frutas vermelhas), equilibrado, surpreendeu. Um belo resultado para um vinho elaborado com uvas da primeira colheita de um vinhedo plantado no ano 2000 (89/100). A segunda amostra, de 2003, mostrou maior estrutura tânica embrulhando frutas vermelhas, matizes de carvalho e especiaria, que formam um paladar complexo e de boa persistência (90/100). Com o 2004, Miras alcançou outro degrau. O tinto, moderno e encorpado, tem um peso em boca que sugere que pode envelhecer alguns anos, mas já se bebe bem e agrada pela fruta (ameixa, leve framboesa) combinada com madeira e rodeada por uma bela textura (91/100). No de 2005, o blend muda de perfil. Fruta muito madura domina a cena desse vinho macio, aveludado e diferente dos anteriores – provavelmente pela entrada de Rolland na equipe (91/100, R$ 125, na Reloco). A mesma fruta volta no 2006, com tons florais e de suave tostado – marcando, quem sabe, o uso de diferentes barricas – fundidos num paladar agradável e elegante (91/100).

Miras quis saber os favoritos de cada um dos degustadores. Os meus, apesar das notas similares, foram dois da era pré-Rolland: o 2003 e, especialmente, o 2004. Nada contra o craque gaulês. Aprendi muito com ele sempre que tive a sorte de encontrá-lo e confesso que nunca bebi um vinho ruim das adegas assessoradas por ele – pelo contrário. O texto acima é mais uma prova disso. O ponto aqui é outro: a diversidade. Explico: acontece que desses tintos supermacios, supercarregados de fruta (super) madura, há cada vez mais na Argentina. Mas daqueles com a raça, a estrutura e a personalidade peculiar dos que Miras fazia sozinho, como se pode ver, infelizmente, há cada vez menos.

(*) Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S. Paulo e do site Basilico

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*Escreve também para o site Basilico

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