Prazeres da mesa

O que diz o rótulo

Entre o exagero de anunciar o site e a arrogância de suprimir dados, que tal o equilíbrio de informar bem o consumidor de vinho?

Por: Prazeres Da Mesa | 29.jun.2011

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Jantei em um restaurante em Florença, com Lorenza Sebasti e Marco Pallanti, da propriedade Castello di Ama, do admirável Chianti Classico. Um de seus restaurantes preferidos, o Oro d’Aria, foi um estabelecimento de ponta da cozinha toscana, fugindo dos clássicos panzanella e bisteca fiorentina. Mas talvez eu não devesse ter ficado surpresa, uma vez que o casal é especialmente consciente de estilo. Marco vestia um terno feito com dois tipos de tweed, os quais você nunca encontraria em Londres desde muitos anos atrás. Lorenza estava de vestido preto, interessante, e seus pés e orelhas ornados com obras de arte em vez dos comuns sapatos e brincos. Todos os anos, há uma nova instalação de arte contemporânea no pátio da propriedade deles, acima de Gaiole.

Como os produtores de vinho costumam fazer, trouxeram junto com eles alguns de seus vinhos para ser servidos em nosso jantar com sete convidados, de forma que acabamos tendo à mesa Chianti Classico 2007, L’Apparita 2007 e Vigneto Bellavista 2001. Além desses diferentes nomes e safras, e da sutil variação na cor, as três garrafas e seus respectivos rótulos pareciam praticamente idênticos, ainda que os vinhos por trás deles fossem bem diferentes (e vendidos, aliás, a preços bem variados).

Enquanto o Chianti Classico é comumente um blend de 80% Sangiovese e uma ampla variedade de outras varietais cultivadas em toda sua propriedade de 50 hectares, L’Apparita é a garrafa famosa deles de 100% Merlot, que vende aproximadamente cinco vezes mais que o Vigneto Bellavista, uma seleção dos vinhos mais sofisticados das safras mais finas de seu vinhedo mais antigo, e que custa quase como o L’Apparita, mas que, claro, tem um sabor bem diferente. Mesmo assim, absolutamente nenhuma dessas diferenças está indicada nos rótulos.

Quando sugeri a Lorenza que talvez fosse útil fornecer algumas pistas nos rótulos dos vinhos produzidos por eles, ela pareceu horrorizada, quase ofendida. Ela costumava pensar, assim como tantos produtores italianos, como pude perceber, que os rótulos detrás das garrafas são para os fracos e o mercado de massa de baixo nível. Tudo bem se um vendedor barato de Chianti quer inflamar o rótulo detrás da garrafa, como muitos vendedores de vinho no mercado de massa fazem, informando que a bebida foi produzida com uvas finas selecionadas em sua madurez perfeita e vinificadas com a tecnologia de ponta.

Lorenza, ao contrário, espera francamente que os consumidores de seus vinhos sejam bem informados quanto aos vinhos produzidos em sua propriedade, assim como ela e Marco são. E, ainda, esse casal estiloso admitiu que, em resposta à crise que predomina quanto à desconsideração do mercado italiano de vinhos, eles estão atualmente em busca frenética por novos mercados. Marco estava embarcando para o Brasil e eles estavam colocando suas cápsulas de Chianti no mercado emergente chinês. Assim, fico pensando se não seria útil esmiuçar para esses novos consumidores o que existe em cada garrafa. Não estou pedindo uma publicidade exagerada e vazia, mas informações verdadeiras, úteis, que ajudariam os consumidores a escolher e a aproveitar mais seus vinhos.

Consigo entender que se um produtor de vinhos estiver certo de que cada uma de suas garrafas é famosa mundialmente (como o Domaine de la Romanée Conti, que nem precisa, creio eu, das palavras “Pinot” e “Noir” em seus rótulos) ou que ela será vendida pessoalmente por um sommelier, ou por um revendedor pequeno frequentado somente por entusiastas do vinho muito bem informados e motivados, então não haveria necessidade de fornecer nenhuma outra informação, além das exigidas pela lei. Talvez, no máximo, uma marca adequada no rótulo. Mas isso certamente só se aplica à minoria dos casos.

A sabedoria que prevalece entre a maioria dos produtores de vinho não só na Itália, mas especialmente em regiões vinícolas europeias mais tradicionais, parece ser a de que há algo de desonroso e supérfluo em usar os rótulos para veicular informações. (Castello di Ama, como tantos outros, erra ao colocar em seus rótulos o nome do website com o qual eles gastaram fortunas. Isso é uma loucura.)

Mas sempre que encontro bons vinhos com rótulos com informações apropriadas e reais, fico ainda mais bem impressionada com eles. Por décadas, Ridge Vineyards na Califórnia foi exemplar nesse quesito. O design do rótulo incorporava uma caixa de texto atraente na qual eram dadas todas as informações de que um consumidor de vinhos curioso precisa a respeito de uma garrafa: peculiaridades da estação de cultivo, descrição do assemblage, quando ele foi engarrafado, a evolução provável.

Torres da Catalunha e do Chile possuem uma trajetória admirável de reputação no que se refere a fornecer informações de base de uso e de interesse do consumidor – no caso, constantes nos rótulos detrás. E eu realmente adoro esses produtores de Champagne, como Bruno Paillard, que nos diz a idade de cada cuvée e quando ela foi despejada. Essas informações são vitais (especialmente para os blends sem safra, ou seja, Non Vintage Blends, que parecem tão superficialmente similares na prateleira). Esses são todos exemplos de produtores de vinho que tratam seus consumidores como adultos inteligentes, em vez de poupá-los de informações, arrogantemente, de certo modo.

Consigo entender que estetas, como Lorenza e Marco do Castello di Ama, podem ter profundas reservas quanto a acrescentar os rótulos detrás de suas garrafas (o que eles foram obrigados a fazer para o precavido mercado americano). Mas a garrafa que acabamos escolhendo para acompanhar nosso jantar na noite seguinte, em outro restaurante florentino, o Guscio, mostrou que é possível veicular uma quantidade considerável de informações no rótulo da frente, havendo esforço para isso. I Sodi di San Niccolo é a garrafa mais importante do produtor Castellare. Aparentemente escrito à mão, de forma bem charmosa, consta no rótulo que a safra 2004 foi elaborada com 85% Sangiovese e 15% Malvasia Nera, e que não foi engarrafada até maio de 2008 – mais precisamente, até a terceira semana de maio de 2008. Eu poderia viver sem saber em qual semana o vinho foi engarrafado, mas fiquei profundamente grata por todo o resto.

Quando todas as dezenas de milhares de diferentes uvas da Itália produzidas a cada ano, muitas delas carregando nome fantasia e DOC e/ou endereço bem obscuro, forem etiquetadas com o nome da região responsável por elas (sejam ou não oficialmente IGT, em vez de DOC), serei uma consumidora verdadeiramente feliz.

Leia mais em JancisRobinson.com.

Jancis Robinson_site

*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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