Prazeres da mesa

O QUE ESPERAR DOS VINHOS CHINESES

Por: Prazeres Da Mesa | 8.sep.2016

Quem produzirá o primeiro rótulo na China que, de fato, vá desafiar os melhores do mundo?

Muitos dos produtores chineses de vinho trabalham para atingir esse objetivo. Até agora, degustei somente alguns poucos que chegaram perto disso (a maioria deles, talvez por coincidência, na Província de Ningxia, predominantemente feminina). Neste ano, farei a nona viagem à China e espero encontrar lá mais sinais dos avanços feitos nas vinícolas chinesas. Afinal, em 2012, a China figurava na quinta posição entre os maiores produtores de vinhos no mundo, em termos de volume.

Motivadas pelo fato de a China ser considerada, de acordo com alguns estudos, o maior mercado consumidor de tintos, duas das maiores empresas vinícolas francesas decidiram investir diretamente no país com o objetivo de produzir um vinho que surpreendesse o mundo e, depois, encantasse o consumidor chinês. Bernard Arnault, do grupo LVMH, talvez seja mais conhecido por suas marcas famosas na indústria da moda (Louis Vuitton, Dior, Givenchy, Céline, Kenzo, DKNY, Marc Jacobs e muitas outras) e de champanhe (Moët & Chandon, Veuve Clicquot, Krug etc.), mas ele também exerce uma força expressiva no mundo de vinhos tranquilos (Cloudy Bay, Cape Mentelle, Terrazas de los Andes, Numanthia, Newton e, agora, Clos des Lambrays, na Borgonha). Sob a marca Chandon, o grupo LVMH produz espumantes na Califórnia, Austrália, Argentina, no Brasil, e, agora, na Índia, portanto, não foi uma surpresa quando o grupo anunciou a inauguração de uma grande vinícola (totalmente moderna, o que é pouco usual no universo chinês de vinhos) dedicada à produção de espumantes, em Ningxia. Aliás, a Chandon Ningxia já está produzindo exemplares deles. Agora só falta a LVMH convencer os chineses de que o vinho não deve ser necessariamente tinto e sem borbulhas. Ou, como explica Jean-Guillaume Prats, responsável pelo portfólio dos vinhos não champanhe da LVMH: “Estamos trabalhando para criar rituais de consumo. Esse será nosso lema condutor”.

Mas Prats e a LVMH querem ir mais além. Eles deram quatro anos para que o enólogo australiano Tony Jordan investigasse as áreas mais adequadas para a produção de tintos superiores na China e, consequentemente, nos últimos três anos, o grupo vem criando raízes em Yunnan, no extremo sul do país. Seus vinhedos estão instalados nos quatro pequenos vilarejos nas montanhas no alto do Vale Mekong, onde os missionários cristãos já haviam estabelecido uma viticultura de pequena escala em uma paisagem dramática ao pé do Himalaia, a apenas 35 quilômetros da fronteira com o Tibete.

A paisagem e o clima dessa área são de sonho, mas a logística, um pesadelo. São necessárias 4 horas (antigamente 11) de estrada difícil até a cidade mais próxima, Shangri-La, para encontrar qualquer profissional de apoio, como um bom eletricista, por exemplo. A grande vantagem, porém, consiste no clima em comparação às demais regiões chinesas: o inverno é ameno o suficiente para dispensar o trabalho laborioso de, no outono, enterrar as vinhas, e, no verão o clima é seco de modo a que as doenças causadas por fungos sejam raridade.

Não se pode dizer a mesma coisa das áreas escolhidas por outros projetos vitivinicultores franceses especialmente ambiciosos. Os proprietários do Château Lafite obtiveram um sucesso ímpar vendendo seus Bordeaux franceses em um mercado chinês em ascensão. Para retribuir a generosidade, por assim dizer, a Château Lafite anunciou, em 2008, uma joint venture com a grande empresa de trading chinesa, a Citic, por meio da qual eles fundariam uma propriedade vinícola destinada à produção de tintos superiores em Shandong, na costa leste do país, onde se concentra a maioria do comércio de vinhos chineses (uma área estrategicamente adequada para a importação, graças à proximidade do Porto de Qingdao). Porém, há o inconveniente do clima: ali, o verão é sempre muito úmido, com tempestades importunamente frequentes.

A equipe de Lafite decidiu, antes de tudo, limpar completamente o terreno, que abrigava anteriormente uma fazenda de cultivo de amendoim. Essa operação não foi fácil (e assim como a operação da LVMH, baseou-se em um arrendamento de 50 anos). Em 2011, eles conseguiram começar a plantar videiras e somente em 2015 é que conseguiram ter uma boa colheita e produzir o próprio vinho pela primeira vez. Atualmente, eles estão decidindo se o vinho deles é bom o suficiente para ter o primeiro verdadeiro lançamento comercial, cujo nome ainda não foi definido. Seu protótipo de 2013, produzido em pequena escala em uma área diferente, foi avaliado por Christophe Salin, do Domaines Barons de Rothschild, no Simpósio do Masters of Wine de 2014, da seguinte maneira: “Não se trata de um vinho ruim, em oposição aos demais vinhos produzidos na região, que é ruim”.

Por outro lado, a safra de 2013 do projeto da LVMH acabou de ser lançada. Seu vinho chama-se Ao Yun, cuja tradução eles acreditam ser equivalente a “nuvem orgulhosa”. Seu lançamento correspondeu a 24.000 garrafas com o valor cuidadosa e atualmente estimado em 200 euros a garrafa pelos colecionadores de vinhos em Estados Unidos, Reino Unido, Suíça e França. Os próximos destinos dessas garrafas serão Hong Kong, Singapura e Japão. E somente quando o vinho estiver desfrutando de glória internacional, como é de se esperar, é que ele será comercializado no mercado chinês.

Muitos vinhos pedem singularidade: a reivindicação do Ao Yun é incontestável. Além disso, o vinho é delicioso. Tediosamente, pareço ter dado o mesmo sorriso ao degustar diretamente da garrafa pela primeira vez, em Londres, em dezembro, assim como na degustação de amostras no início de março de 2014, em Yunnan. O vinho tem a cor profunda, o sabor, o frescor e a vitalidade típicos de vinhos produzidos em altitudes elevadas, e, por isso, me remeteu um pouco ao Ribera del Duero (exceto o carvalho óbvio que assola muitos deles). Ele tem uma certa picância e aroma de Cabernet Franc, que aparentemente compõe 15% ou mais da mistura com o inevitável Cabernet Sauvignon, mostrando sua presença no final persistente, mas o nariz é decididamente suntuoso. Seu teor alcoólico é de “somente” 13,8% e os taninos são admiravelmente suaves. A temporada de trabalho do gerente de projeto Maxence Dulou, em Cheval Blanc, pode estar em evidência aqui.

China e França tinham até então um relacionamento bastante conturbado, pelo menos quando havia vinho envolvido. Na década de 1980, quando joint ventures estavam em voga em todos os lugares do mundo do vinho, a maioria dos projetos vinícolas chineses de alto perfil se atrelava à expertise francesa, para depois simplesmente dispensá-la, assim que a transferência de conhecimento e a experiência fossem consideradas finalizadas. Vai ser interessante ver como os chineses vão simpatizar com essas tentativas francesas de produção de Grands Crus na China, e se haverá uma demanda sustentável por eles fora do país.

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* Coluna publica na edição 150 de Prazeres da Mesa

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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