Prazeres da mesa

O vinho em 2015

Por: Prazeres Da Mesa | 15.may.2015

Contra as previsões pessimistas, as importações cresceram no ano passado, e com um pouco mais de atitude, o consumo continuará em alta

Todo os anos, desde que escrevo sobre vinhos, começam com notícias pesarosas sobre o mercado. Os pessimistas fazem a festa com previsões desastrosas e desastradas. Por ironia dos fatos, elas quase sempre fracassam. Em 2014, esperava-se o fracasso em função de Copa do Mundo e de eleições. Como? Ora, desde que me conheço por gente, anos de eleição incentivam a frequência em bares e restaurantes, por que seria diferente em 2014? Copa do Mundo, o mesmo. As pessoas têm mais momentos de lazer. Os que costumam curtir futebol bebendo cerveja beberam cerveja, os que consomem vinho consumiram vinho… simples isso.

Não deu outra. Dados de importação colhidos pelo consultor Adão Morelatto (International Consulting) dão conta de um crescimento na importação de vinhos da ordem de 12,5%. Essas importações respondem por cerca de 80% do mercado de vinhos finos no Brasil, que ainda é muito pequeno, apenas 325 milhões de dólares (valor que significa, na ponta da gôndola, dez vezes esse número!) e cerca de 9.000 containers de 1.000 caixas de 12 garrafas, ou seja 108 milhões de garrafas/ano. Há outros 25 ou 30 milhões de garrafas de vinhos nacionais.

Mas o mercado brasileiro gosta do pessimismo e gosta mais de ser plateia que palco. São poucos, pouquíssimos os que trabalham pelo crescimento do mercado e que ignoram os pessimistas.

O potencial brasileiro é enorme. Eu já quase me cansei de repetir isso, mas não vou desistir. Existem mais de 30 milhões de pessoas com condições financeiras para consumir uma garrafa de vinho por semana. Estamos falando de nada menos que 1,56 bilhão de garrafas/ano! Ou seja, mais de 10 vezes o volume consumido hoje.

O que falta? Eu vou dizer: Falta cultura do consumidor e atitude do mercado.

Ou seja, depende de você. Depende de vocês importadores que devem anunciar, promover e ensinar o consumidor. Vocês devem promover mais degustações com consumidores. Isso resultará maiores e melhores benefícios a médio e longo prazos do que guerrear por pontos de venda, corrompendo os agentes venais e encarecendo o vinho para o pouco mercado que há.

Depende de vocês produtores nacionais fazerem o mesmo que os importadores, além de entenderem que o mercado é do vinho e não do vinho daqui ou dali. Parar com nhem, nhem, nhem, se unirem, pequenos e grandes e também com os importadores.

Depende dos restaurantes que precisam investir em bag-in-box, não apenas na cozinha, para fazer brasato al “Barolo”, mas para colocar uma taça na mão do cliente. Isso educa e insere. Há ótimas e baratas alternativas. A segunda taça paga a primeira.

Depende de você sommelier se impor e construir uma carta diversificada, que eduque e que seduza, em lugar de cartas marcadas e de rótulos famosos. Um pouquinho sempre é bom, afinal esnobes sempre consumirão vinhos caros em restaurantes.

Depende de você consumidor dar preferência aos endereços que oferecem cartas de boa relação de preço e qualidade e que ofereça novidades e diversidade.

Depende de você consumidor deixar de frescuras e tratar o vinho como um complemento alimentar. Uma taça no almoço por exemplo não vai deixá-lo imprestável, ao contrário. Basta ver os europeus. Por que só tomar vinho no jantar? O desafio do mercado do vinho no Brasil é conseguir o hábito de uma taça por refeição. Enquanto não conquistarmos isso não teremos um mercado consistente.

É isso, é simples, mas exige atitude e cultura.

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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