Prazeres da mesa

O vinho no cinema

Por: Prazeres Da Mesa | 29.may.2015

Um questão de emoção e sensibilidade

Muitos restaurantes têm utilizado prestigiadas garrafas de vinhos vazias para ornar as paredes do salão, artifício esteticamente atraente e que evidencia a ligação da casa com a nobre bebida. É possível que muitos clientes tenham curiosidade de saber quem as consumiu, mas raros são aqueles que consentiriam ter sua identidade revelada. A rigor, esse tipo de fanfarronice poderia fazer bem ao ego de alguns, mas, na prática, teria até efeito contrário. Não havia essa preocupação nos bons tempos do Taillevent, tri-estrelado restaurante parisiense celebre por sua cozinha e, especialmente, pela excelência de sua adega e de seu serviço de vinhos – com a morte de Jean-Claude Vrinat, o proprietário e personagem emblemático do cenário enogastronômico francês, em 2007, a casa perdeu um pouco de seu brilho, mas continua sendo referência no meio, detendo duas estrelas no Michelin.

Se eu não podia me permitir frequentar a casa tanto quanto gostaria – fui apenas duas vezes – meu grande prazer era invariavelmente passar na Les Caves Taillevent, uma loja de vinhos que o restaurante mantinha a menos de cinco minutos da matriz, na Rue du Faubourg Saint-Honoré, e a poucos passos da Salle Pleyel, sede da orquestra de Paris. Além de propor uma seleção de rótulos diferenciados, vendidos a preços bastante corretos na época, e de ter atendentes solícitos e sempre disponíveis para conversar (pouco comum em Paris), o que me encantava era ficar admirando as garrafas vazias expostas em prateleiras individuais na parede lateral esquerda da loja, todas acompanhadas de uma plaquinha com o nome de quem a consumiu e a data em que isso se deu.

Era, para mim, uma viagem: mais do que demonstrar o nível de seus frequentadores, o restaurante permitia testemunhar os hábitos e preferências de cada um deles. Mesmo havendo, como não poderia deixar de ser, vestígios da presença de políticos e Chefes de Estado – o presidente De Gaulle pediu uma garrafa magnum de Château Haut Brion 1934 –, o destaque era a frequência de artistas de renome de todas as áreas, caso do regente e pianista Arthur Rubinstein, que bebeu um Volnay Clos des Champans 1934, em outubro de 1972, provavelmente depois de se apresentar na Salle Pleyel; do genial Salvador Dali, que pediu um Château Cheval Blanc 1953, quatro anos mais tarde; e do cineasta Orson Welles, que, não deixando por menos, foi fundo num raro e sensacional Château Margaux 1900, um dos melhores tintos de todos os tempos.

Não há dúvida que a capacidade de expressar em suas atividades enorme sensibilidade e emoção, atributos que esses nomes de sucesso tinham em comum, abriu caminho para que entrassem no mundo do vinho, traduzindo-se no pedir e saber apreciar aqueles vinhos tão especiais do restaurante Taillevent. É curioso notar que, embora quem viva de arte tenha os instrumentos – melhor dizer virtudes – para tirar melhor partido do que essa bebida mágica tem para oferecer, em certos círculos há uma predisposição maior para cultivar o hábito do vinho. Pelo menos é o que se deduz do apego por tintos, brancos e champanhes, que atores e diretores de cinema demonstram fora e dentro das telas.

Se é para começar com casos extremos, o melhor exemplo é o de Francis Ford Coppola, que comprou uma vinícola histórica no Napa Valley, a Inglenook, em 1975, conduzindo-a desde então com incrível dedicação. Consta, inclusive, que numa época de vacas magras, quando teve que se endividar para terminar um de seus filmes, o Apocalypse Now, a única propriedade que ele não quis hipotecar foi a vinícola. Produzir o próprio vinho não foi a opção de outra celebridade do cinema e grande amante da bebida, Sir Alfred Hitchcock. O notável mestre do suspense preferiu se dedicar a formar uma adega de respeito, e desfrutar dela, vangloriando-se de possuir as mais belas garrafas de Hollywood. Foi de sua predileção por renomados rótulos franceses, notadamente bordeaux e borgonhas, que ele pinçou o Pommard 1934, garrafa contendo urânio que Cary Grant derruba e quebra no filme Interlúdio, (Notorius, na versão original), rodado, é bom lembrar, no Rio de Janeiro. Em reconhecimento à promoção que essa cena e outras citações sobre a Borgonha trouxeram à região, Hitchcock foi convidado a fazer parte da Confrèrie des Chevaliers du Tastevin, tendo sido entronizado em maio de 1960.

A sofisticação dos borgonhas também foi utilizada por Woody Allen, um apreciador de bons rótulos, porém, sem tanta bagagem nessa área quanto Hitchcock, no filme Trapaceiros (Small time crooks, produzido em 2000), para ilustrar a tentativa de um casal de novos ricos – interpretado por ele e a atriz Tracey Ullman – de parecerem refinados. Se nesse filme, bem fiel ao estilo irônico de Woody Allen, os personagens tentam mostrar noções que não tinham sobre vinho, em “Uma mulher para dois” (Jules e Jim, de 1961), do artífice da Nouvelle Vague, François Truffaut, a atriz Jeanne Moreau, no papel de Catherine, expõe um conhecimento profundo sobre vinicultura francesa, citando de enfiada uma extensa série de nomes e regiões vinícolas importantes da França: “… os bordeaux Château Lafite, Château Margaux, Château d’Yquem, Château Frontenac, Saint Emilion, Saint Julien,…. E tem também, espere, o Clos Vougeot, os Bourgognes, o La Romanée, o Chambertin, o Beaune, o Pommard, o Chablis, o Montrachet, o Volnay, e depois os Beaujolais, o Pouilly-Fuissé, o Pouilly-Loché, o Moulin-à-Vent, o Fleurie, o Morgon, o Brouilly, o St Amour…”. Na verdade, não era Truffaut o versado na matéria – dizem que as mulheres e o cinema monopolizavam sua atenção -, mas o autor do romance, Henri-Pierre Roché. O importante, em todo caso, é que haja sintonia e complementação entre roteiro e direção para que tudo soe verdadeiro no que se refere ao vinho.

Tem diretor que leva isso tão a sério que nem admite vinho “fake” para rodar as cenas, ou seja, o líquido colocado no copo tem de ser de verdade. A americana Jennifer O’Neil (qual é o cinquentão que não se lembra dela em “Verão de 42”?) não estava acostumada com tanta realidade e se surpreendeu logo no começo das filmagens de “O inocente” (L’Innocente, de 1976), de Luchino Visconti, na Itália, ao provar a taça e verificar que era verdadeira e das melhores. Era uma Cristal.

Em matéria de vinho e cinema, contudo, nada supera “A Festa de Babette”, obra prima do diretor dinamarquês Gabriel Axel, inspirado em conto de Isak Dinessen. Não é só um desfile de vinhos soberbos e uma perfeita compatibilização com pratos divinos – o amontillado com sopa de tartaruga, o champagne Veuve Clicquot 1860 com blinis Demidoff e o Clos Vougeot 1945 com cailles en sarcophage. O filme consegue mostrar o espírito de comunhão e compartilhamento que envolve o nobre fermentado. A rigor, o vinho enseja e estimula isso e, naquela vila do norte da Dinamarca, por mais que o pastor pregasse o caminho espiritual ele nunca havia conseguido alcançar plena comunhão. A falta de conhecimento do que estava sendo servido – o general era o único que tinha – não impediu as pessoas de compartilhar e se comunicar. Elas se comunicaram pela emoção. É o que o vinho incita.

 

 

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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