Prazeres da mesa

OS BONS GOLES DE 2016

Por: Prazeres Da Mesa | 22.may.2017

A boa notícia é que são vinhos na faixa de preço que agrada à grande maioria dos consumidores

Apesar de alterações no governo que trouxeram certa esperança, entre elas a entrada em cena de uma equipe que vislumbra novos rumos para a economia do Brasil, embrulhada em um ambiente político sujeito a constantes chuvas e trovoadas, infelizmente, ela continuou ladeira abaixo em 2016.

No que diz respeito ao mundo de Baco, o azedo, amargo e triste limão dos indicadores econômicos acabou transformando-se, em alguns aspectos pelo menos, em uma interessante limonada.

Explico o ponto repetindo aqui o que disse nesta coluna poucos meses atrás. A crise e o dinheiro mais curto (ou a incerteza de conservar o emprego) continuaram levando mais consumidores a migrar para bons goles a preços mais em conta do que os que bebiam anteriormente. A mudança forçou os importadores (pelo segundo ano consecutivo) a procurar lá fora exemplares adequados para satisfazer essa tendência. Resultado: um portfólio enriquecido com mais rótulos com valores próximos do bolso dos mortais que compensam na taça o que se paga por eles. Isso ajuda tanto a manter (ou até aquecer um pouco) o mercado como a derrubar o mito de que “vinho para ser bom tem de ser caro”, mostrando que é possível beber bons exemplares sem ter de gastar uma fortuna.

Foram novidades nessa área que dominaram os textos que publiquei em 2016 para Prazeres da Mesa.  A seguir, dez países que se destacaram em diversas categorias, boa pedida para iniciar a contento o novo ano.

Aproveitando, faço aqui um brinde: espero que 2017 seja para todos muito, mas muito melhor mesmo do que o ano que passou. Saúde!

Espanha

Dois destaques aqui, ambos tintos que pertencem ao portfólio da Garcia Carrión, uma gigantesca empresa ibérica, estreante no Brasil, que tem adegas e vinhedos nas principais regiões do país. Um, o Solar de Carrión Cosecha 2015, tem como berço a Rioja, no centro-norte. Elaborado com uvas Tempranillo (85%), complementadas por Graciano e Garnacha, ele se mostra muito frutado (cerejas, suave framboesa), macio, prazeroso e equilibrado (avaliação: 88 pontos em 100, R$ 60).

O outro, o Mayor de Castilla Cosecha 2014, é de Ribera del Duero, mais a oeste. Puro Tempranillo (ou, naquelas bandas, Tinta del País), está igualmente marcado por frutas vermelhas rodeadas por taninos finos que marcam um final longo e muito agradável (89/100, R$ 62,37). Os dois estão à venda na Adega Alentejana.

Argentina

Um par de rubros brilhou também entre os goles platinos. Um deles à base de uvas Bonarda: o Mairena 2014, elaborado pela adega Familia Blanco, como o nome sugere, uma vinícola familiar de Mendoza, principal província vinícola do país. Modelado pelo enólogo Gabriel Blanco, filho dos proprietários, ele é um vinho amplo e atraente que mescla geleias com  cassis, em paladar redondo, saboroso, com boa textura e persistência (90/100, R$ 72). Rei dos Whisky’s e Vinhos.

O segundo pertence à adega Renacer, também de Mendoza, nascida em 2004 como fruto de investimentos chilenos: o Punto Final Reserva Malbec 2014. Ele foi elaborado com uvas de parreiras de mais de 50 anos de idade vinificadas em tonéis e cubas de inox e passou cerca de dez meses em barricas de carvalho. Um vinho untuoso, de boa estrutura e aroma e sabor que unem fruta, tons tostados e de especiaria, dando vida a um paladar complexo e longo (91/100, R$ 89,50). Vinhos do Mundo (vinhospremium.com.br).

França

Espumante da região da Borgonha, o Baron Aimé Brut Prestige ficou na ponta do pelotão de goles gauleses. Uvas Chardonnay (40%), Pinot Noir (30%) e Aligoté entram na fórmula desse branco instigante, tanto pelo aroma como pelo sabor (pão fresco, frutas brancas, avelãs), sustentado por boa acidez e embrulhado em bolhas finas que lhe conferem cremosidade (91/100, R$ 99,57). Casa Flora.

Chile

Conquista o espaço nessa ala um branco da Viña Santa Rita, um dos mais importantes produtores do país andino. A casa, que tem em seu catálogo clássicos chilenos, como o Casa Real, um tremendo Cabernet Sauvignon, entre os melhores do Cone Sul. Faz bonito também na linha de entrada, o 3 Medallas, composto de cinco varietais, que também estreou em 2016. Menção para o Chardonnay 2015, bem frutado, com boa acidez, um vinho bem-feito, redondo e prazeroso (86/100, R$ 26,90). Pão de Açúcar.

Portugal

Houve, como sempre, bons aportes da Terrinha no ano que passou. Destaque para dois tintos. Do eterno Douro, no norte, e de autoria das tradicionais Caves Messias, empresa com vinhos nas mais importantes regiões lusas, chegou o Aprendiz 2011, um corte de cepas clássicas do lugar (Touriga Nacional e Franca, Tinta Barroca e Roriz e Tinto Cão), com passagem por carvalho francês. Concentrado e robusto, ele une fruta, baunilha e especiarias em paladar rico, com taninos firmes e bom final (90/100, R$ 82). Casa Flora.

Merece estar aqui também pela bela performance o Portas do Sol 2014, nova etiqueta destinada a integrar o primeiro degrau da Quinta da Alorna, renomada vinícola do Tejo, região ao norte de Lisboa. Castelão, Tinta Miúda e Trincadeira, são as variedades que deram forma a esse vinho de corpo médio, com bom conteúdo de fruta, macio e saboroso e que, como disse quando o comentei pela primeira vez, bebe-se fácil e paga-se idem. Para comprar a caixa (88/100, R$ 30). Adega Alentejana.

Brasil

Por último, mas de maneira alguma menos importante, os dois melhores vinhos nacionais do ano. Um deles, rubro, o Vale da Pedra Syrah 2015 é da Guaspari, jovem vinícola paulista de Espírito Santo do Pinhal (200 quilômetros ao norte da capital, na divisa com Minas). Vale da Pedra é um rótulo recém-criado, posicionado abaixo de seus topo de gama, os Vista. O vinho, que estagiou cerca de seis meses em barricas francesas usadas, agrada de ponta a ponta pela fruta intensa (acompanhada de pinceladas florais), que domina o sabor desse tinto aveludado, equilibrado e de boa persistência (89/100, R$ 78). guaspari.com.br

Encerro com um espumante: o Series by Salton Rosé, membro da nova linha básica de borbulhas finas da Salton, uma das mais importantes vinícolas gaúchas. Uma respeitável coleção de cepas (Chardonnay, Riesling Itálico, Sauvignon Blanc, Trebbiano e Merlot, esta última responsável pela intensa cor rosada) entram na composição desse vinho elaborado pelo método charmat (no qual as borbulhas nascem por uma segunda fermentação em tanques). Frutas tropicais com tênues toques minerais e de morango e borbulhas abundantes marcam o paladar desse espumante alegre e saboroso (87/100, R$ 23). A venda em caixa de seis unidades (aliás, até adequado, uma vez que, como também disse anteriormente, é outro para comprar a caixa mesmo). salton.com.br.

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

Colunas recentes

Colunas