Prazeres da mesa

Os brigadeiros da tia

Por: Prazeres Da Mesa | 26.aug.2016

Sério, alguém aí pode me dizer em que momento as festas infantis ficaram tão complicadas? E caras? E difíceis de suportar? Eu sou avessa aos buffets infantis. Nada contra os jovens que entretém as crianças (muitos senões ao preparo que recebem ou deixam de receber). Fato é que não suporto a voz gritada que monitores usam para “brincar” com as crianças, chamar para a hora do parabéns; é quase uma intimação.

Também não tolero a falsa-intimidade que essas equipes de animação adotam para lidar com os pequenininhos. Criança não é boba; percebe que aquilo não é espontâneo, não é natural… não cola.

Recordo-me de uma dessas festas com decoração estonteante. O tema era ‘Os três porquinhos’. Cícero, Heitor e Prático reinavam absolutos diante o terrível Lobo Mau escondido atrás de uma casinha colorida. Todo mundo sabe que, na história, as casinhas eram três: de palha, de madeira e, a indestrutível, de tijolos.

Mas na mesa da festa, a casinha era feita de isopor, pintada de verde; muito bonita, mas incompatível com a história. Meu filho parou diante da mesa magnífica e deu início ao jogo dos sete erros: a casa dos porquinhos não era pintada, o Prático não tocava violão porque segurava uma pá de pedreiro para construir a casa… e por aí foi, até cansar e partir para a ação: o ataque aos doces. Esticou o bracinho e, antes de capturar um deles, cheio de bolinhas coloridas, foi travado por uma “tia”: não pode, não está na hora do doce…

Pois é, hoje festa de criança obedece a um roteiro frustrante. A hora da pipoca, a hora do sanduíche, a hora das comidinhas, a hora de brincar, a hora de cantar para o aniversariante, a hora de comer doce e, finalmente (ufa!), a hora de vazar.

01/12

Como eu dizia, nunca fui fã dessas caríssimas e metódicas festas infantis nos buffets. Sempre dei preferência às comemorações em casa. “Você é maluca… as crianças vão sujar tudo, vão jogar doce no chão, vão melecar o sofá.”, me diziam. Nunca me importei. Comemoramos com a festa dos balões e aviões que eu desenhei com guache nas paredes, em outra ocasião pintando pratinhos de cerâmica que enchemos de balas e demos como lembrancinha para as crianças e também fizemos uma festa em que, com mistura para pudim, simulamos um rio de chocolate – meu filho era louco pelo filme ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’.

Em todas essas ocasiões – e isso já faz 18 anos – tivemos um espetacular denominador comum: os brigadeiros da tia Ângela, minha irmã que tem mãos de fada e coração de anjo. A Ângela – mesmo chegando tardíssimo do trabalho – sempre se postou diante do fogão para mexer o brigadeiro e depois, pacientemente, esperava a massa esfriar para enrolar os docinhos.

Houve festa em que ela fez 100 brigadeiros. Mas em outras foram 500, 600. Nunca perfeitinhos, nem robustos como esses pelos quais a gente paga 4 ou 5 reais nas brigadeirias descoladas da cidade. Os brigadeiros da tia Ângela são miudinhos, um pouco irregulares, fresquinhos de lamber os beiços e derretem antes que a gente tenha oportunidade de mastigar. Ninguém come os brigadeiros da tia com economia. É de 10 para mais…

Na família, não nos importamos se a festa é de criança, adulto ou de velho. Às vezes é jantar de gala, como foram as bodas de prata da outra irmã. Fato inquestionável, imutável, irretocável: a comemoração sempre  termina com os brigadeiros da tia Ângela, herança viva, entregue com amor nas forminhas de papel.

 

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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