Prazeres da mesa

OS VINHOS DE LISBOA

Por: Prazeres Da Mesa | 26.apr.2016

A linda paisagem, a original arquitetura da cidade antiga, o típico fado, a rica gastronomia são motivos que deliciam os visitantes brasileiros. Poucos sabem que Lisboa também é nome de vinho – e de grande qualidade

Nem sempre os vinhos de Lisboa se chamaram assim. Durante inúmeras décadas foram conhecidos pela designação genérica (nem sempre muito abonatória) de “vinhos do Oeste”. Essa região que se estende para o norte da capital de Portugal ao longo de uma faixa litorânea que nunca excede 40 quilômetros de largura foi até os anos 80 do século XX um autêntico mar de vinhas, nem sempre de qualidade. Outros tempos, em que para a maioria dos produtores da região era mais importante produzir muito vinho do que produzir bom vinho. As alterações nos mercados, os hábitos de consumo e a demarcação da região em 1989, então com o nome de Estremadura, mudaram radicalmente o tipo de rótulos ali produzido. As variedades de uvas usadas até então, com elevadas produções por hectare, foram substituídas por uvas menos produtivas, mas de muito melhor qualidade. As vinícolas modernizaram-se e apareceram diversos produtores artesanais proprietários de quintas, elaborando vinhos mais ambiciosos, de nível superior. Para marcar essa mudança, e reforçar a afirmação da qualidade e a imagem dos vinhos ali produzidos, a região mudou novamente de nome em 2009, assumindo a designação de Vinhos de Lisboa.

A verdade é que essa região tem todas as condições para originar vinhos de muito bom nível. Formada por suaves colinas, de relevo pouco acentuado,  tem um clima temperado, de influência atlântica, com verão relativamente fresco e inverno suave, variando de local para local, consoante se está mais perto ou mais afastado do Oceano Atlântico.

A grande região de Lisboa abarca nada menos que nove denominações de origem (DO). É em torno da capital que se situam as zonas vinícolas mais clássicas, como Carcavelos, Colares e Bucelas, demarcadas entre 1908 e 1911. Estas são regiões com identidade  própria, com vinhos bastante característicos. Contudo, a proximidade da grande cidade de Lisboa, que contribuiu para sua fama, foi também a razão de sua quase extinção, devido à pressão urbanística. Dos vinhos licorosos de Carcavelos resta um único produtor, Colares deu sinais positivos nos últimos anos com o aparecimento de três ou quatro novas produções, e Bucelas, a única região portuguesa regulamentada exclusivamente para vinhos brancos, não tem muitos mais.

Apesar do significado histórico de Carcavelos, Colares e Bucelas, o grande peso vinícola da região de Lisboa está nas restantes denominações de origem (DO): Alenquer, Arruda, Encostas d’Aire, Óbidos, Torres Vedras e Lourinhã (esta, só para aguardente). Mas a maior parte dos vinhos produzidos na região utiliza a Indicação Geográfica (IG) Lisboa e compreende-se que assim seja, dado o maior impacto nacional e internacional do nome da capital de Portugal.

Os brancos, rosados e tintos de Lisboa são vinhos frescos, com boa acidez, influenciados pela proximidade do mar. Essas produções recorrem a uma grande variedade de uvas, portuguesas e internacionais, como as brancas Arinto (a grande uva de Bucelas), Fernão Pires, Moscatel, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Seara-Nova, Vital, Viognier e Verdelho e as tintas Castelão, Aragonez (Tinta Roriz), Touriga Nacional, Tinta Miúda, Caladoc, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon ou Syrah.

De destacar igualmente, a crescente importância que a categoria Vinhos Leves (com baixo teor alcoólico) tem na região de Lisboa.

Entre os produtores mais conceituados na região estão rótulos mais antigos e outros mais recentes, quase todos distribuídos no Brasil. São de referência, por exemplo, Adega Mãe (propriedade do famoso bacalhau Riberalves, com o vinho Dory), Casa Santos Lima, Sanguinhal, Quinta de Pancas, Grand’Arte, Quinta de Chocapalha (casa-mãe da enóloga Sandra Tavares da Silva, dona do conhecido Douro Pintas), Quinta do Gradil, Quinta do Monte d’Oiro (onde se faz um Syrah de excelência ao estilo de Côtes-du-Rhône), Morgado de Sta. Catherina (da Quinta da Romeira, referência em brancos de Bucelas). Na região de Lisboa, mais propriamente na Quinta de Loridos, situa-se igualmente um dos mais interessantes spots de turismo do vinho em Portugal, o Bacalhôa Buddha Eden, um impressionante jardim.

Luis Lopes

*Além de um apreciador das boas taças, é diretor da Revista de Vinhos, de Portugal

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