Prazeres da mesa

Pão para sempre

Por: Prazeres Da Mesa | 3.mar.2017

Tenho 8 anos. Na casa do vizinho moram três meninos com idades idênticas à minha idade e das minhas irmãs. Eles formam uma escadinha como nós: um garoto de 7, um de 8 e um de 9. Brincamos todas as tardes, pulando o murinho baixo que divide as nossas casas. De repente o grito da mãe ecoa até o quintal: “vem tomar lanche”.

O lanche é quase espartano: café com leite e pão. Filão de pão cortado em fatias, lambuzado com um pouco de manteiga. A gente faz uma fila no banheiro, lava as mãozinhas, senta-se à mesa e aquele pão – que vem na minha memória – traduz o melhor das nossas infâncias.

Agora tenho 28 anos e viajo para a Espanha em férias, com minha amiga Suely. Antes de a gente embarcar, os pactos para evitar desavenças durante a viagem. Eu digo que não abro mão de passar por Torremolinos, onde vou encontrar um namorado. Ela não abre mão do Museu Picasso, em Barcelona. Nós duas acordamos que vamos comer muito pan con tomate , um clássico entre as tapas espanholas. E, por sorte, no meio do caminho ainda descobrimos o pan del pueblo, pão rústico e redondo, receita que se repete há cinco séculos nos vilarejos escondidos de todo o país. Podia ter passado 30 dias a pão e água que mal não me faria. E, ante tantas opções, eu ainda me alegraria.

Mais uma década se foi e cismo de aprender a fazer pão. Vou atrás do Fabrice Lenude, mestre francês de pâtisserie, radicado há tempos no Brasil, também um professor dedicado e apaixonado. O começo da aula foi um tanto constrangedor. Eu dividi as bancadas com confeiteiras, outros padeiros experientes, gente do ramo, sabe? Foram duras as penas, mas aprendi a fazer pão de azeite e azeitona e um outro, pain aux raisin (eu gosto de uvas passas, tá?). Repeti, repeti, repeti tanto que consegui chegar a resultados semelhantes àquela receita que aprendi.

Há alguns anos, tive a chance de entrevistar um dos maiores especialistas em pães aqui no Brasil, o Rogério Shimura. Curiosamente um descendente de japoneses, menino que cresceu em Atibaia, interior de São Paulo e abandonou o trabalho em uma multinacional do setor automotivo para se dedicar às focaccias, schiacciatas, ciabattas, baguetes, broa de milho, pães de figo, pães de casca grossa e tantos outros.

Vendo aquele rapaz de olhos puxados tão apaixonado pelos seus pãezinhos – ele havia acabado de assar vários durante uma aula no evento Semana Mesa SP e levou alguns enrolados em um pano, para eu provar – tomei coragem e entreguei: “queria saber fazer pães melhores, mas não chego lá…”

E o Rogério, sorriso enigmático, ensina: amassa… amassa muito, amassa com paixão. Quando o suor brotar na sua testa e seus braços estiverem bem cansados, pode parar. O pão vai ficar bom.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

Colunas recentes

Colunas