Prazeres da mesa

Pequi como identidade

Por: Prazeres Da Mesa | 5.feb.2018

Por Sara Campos

Foto Sergio Coimbra

A seleção tradicional do fruto na região do Xingu tem grande  chance de ser mais valorizado em projetos mundiais 

Um dos grandes símbolos gastronômicos do bioma Cerrado, o pequi é caracterizado pelo sabor marcante e forte presença no território da região Centro-Oeste. Apesar de fazer parte da biodiversidade de diversos estados, como Pará, Ceará, Piauí, Maranhão, Bahia e Minas Gerais, foi na região do Alto Xingu, em Canarana, Mato Grosso, que o fruto passou por uma seleção tradicional por indígenas da região, com base nos pequis silvestres.

A triagem de sementes resultou em frutos que se diferenciam de outros encontrados no Brasil: tamanho maior, ausência de espinhos no caroço, polpa mais carnuda e mais quantidade de óleo. O pequi chamado “pequi do Xingu” é bastante apreciado na gastronomia entre os não indígenas e valorizado culturalmente por essas comunidades tradicionais.

Fazendeiros da região já tentaram se apropriar culturalmente do ingrediente, mas graças à organização da comunidade foi possível frear essa possibilidade e manter o pequi como uma das marcas identitárias da cultura indígena. Lideranças da etnia cuicuro gravaram o documentário Cheiro de Pequi, que relata a lenda sobre o surgimento do fruto. “A preocupação dos índios não é a utilização do pequi por outras pessoas, e sim garantir um reconhecimento do trabalho de manejo indígena”,  afirma Maira Smith, que participou do projeto audiovisual e é autora da tese Árvores de Cultura: Cultivo e Uso do Pequi entre os Kuikuros do Alto Xingu.

Pequi slow food

No território, a importância da castanha-de-pequi e de todas as outras partes ultrapassa as questões gastronômicas. Ela é demonstrada por simbolismos durante o ritual indígena intertribal da etnia, a mais numerosa do Xingu entre as 11 comunidades tradicionais. O evento Quarup é um ritual funerário que homenageia um morto célebre. A família do falecido prepara-se com um ano de antecedência para garantir a quantidade suficiente de pequi.

Ao final do ritual, o chefe anfitrião oferece aos líderes das outras aldeias a castanha-de-pequi pelas mãos de uma integrante da aldeia que ficou em reclusão – o que simboliza uma aliança entre as tribos. Durante o evento, o óleo é usado como tinta para a pintura corporal, a semente transforma-se em chocalho e o mingau é servido aos convidados.

O ingrediente – que marca o terroir de uma região, valoriza os costumes agrícolas e culturais praticados ao longo dos séculos por inúmeras comunidades tradicionais – está cotado para integrar a lista do catálogo Arca do Gosto e se tornar uma nova Fortaleza da região Centro-Oeste do Slow Food.

Na região leste do Xingu, a Associação Indígena Kisêdjê trabalha com o beneficiamento do óleo e da castanha-do-pequi coletado na região e já realizou uma parceria com o chef Alex Atala.

“O pequi do Xingu é um recurso genético e ao mesmo tempo um objeto cultural de alto valor e simbolismo. Sua estrutura genética e morfológica agrega em si o processo prolongado de seleção com as principais características selecionadas pelos indígenas, e esse trabalho deve ser reconhecido e divulgado”, diz a pesquisadora.

Cheiro de Pequi

Um trabalho conjunto entre integrantes da etnia cuicuro, a pesquisadora Maira Smith, o antropólogo Carlos Fausto e o Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, viabilizou o trabalho audiovisual Cheiro de Pequi – com aspectos sobre o cultivo, o uso e a simbologia do fruto, destacando a lenda sobre a origem do ingrediente e a herança da história oral ao longo dos séculos. Assista o vídeo acessando o link.

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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