Prazeres da mesa

Pinot chileno testado

Uma ampla degustação com tintos de Pinor Noir de vários vales chilenos, mostra na frente em qualidade e tipicidade, os de Casablanca, San Antonio e Leyda

Por: Prazeres Da Mesa | 29.jun.2011

O portfólio etílico chileno tem crescido nas últimas décadas tanto em qualidade quanto em diversidade. Incansável, nosso vizinho incorporou ao repertório de goles finos novos terroirs, vales como Casablanca, San Antonio, Leyda ou Elqui, e avançou em outros tradicionais, como nas áreas costeiras de Colchagua e Aconcagua. Nesses cantos despontaram variedades como a Syrah, a Sauvignon Blanc e, também, pelo menos para os tintos tranquilos, a Pinot Noir.

No time das novidades se encontram Sauvignon de boa tipicidade, alguns com facetas verdes, outros com tons tropicais, ou com uma mescla dos dois perfis, mas que lembram sem dúvida os brancos da cepa. Há também um belo elenco de Syrah, uns de terras mais cálidas, que pendem mais para o lado australiano, ou de cantos mais frios, com pinta de Rhône (mas em ambos os casos com absoluta cara de Syrah).

E os Pinot Noir, a quantas andam? Entre os rubros da cepa, em matéria de tipicidade, parece haver ainda altos e baixos. Pelo menos entre os 32 degustados (às cegas) para esta coluna. O conjunto mostrou bons vinhos, mas que nem sempre exibiram no copo a fruta clássica e sedutora, a maciez e a elegância, dessa uva de difícil adaptação fora de seu grande berço francês, a Borgonha (aliás, complicada como ela é, às vezes, para falar a verdade, nem consegue mostrar suas virtudes lá).

A seguir os melhores (e mais característicos) provados, todos dos vales de Casablanca (ao noroeste de Santiago), de San Antonio e Leyda (ao oeste da capital, e como o anterior entre a cidade e a costa do Pacífico).

Morandé Reserva 2008 (Casablanca). Da vinícola presidida por quem descortinou Casablanca para a viticultura, o renomado enólogo Paulo Morandé. Mostra boa fruta e leves toques de madeira marcando um sabor de boa densidade (87/100, R$ 48, Casa Santa Luzia).

Viña Leyda Reserve 2010 (Leyda). Oriundo dos 245 hectares de vinhas que a casa possui na região. A criação da enóloga Viviane Navarrete tem aroma marcado por geleias e groselhas que moldam também o paladar, saboroso, com boa acidez (88/100, R$ 47, Grand Cru).

William Cole Columbine 2009 (Casablanca). A empresa conta com bons Sauvignon Blanc, outra especialidade do vale. Tem também Pinot como este, amadurecido por seis meses em carvalho francês, que mescla fruta com toques de couro (88/100, R$ 64, Ana Import).

Viña Mar Reserva Especial 2008 (Casablanca). Exemplar redondo com bom conteúdo de fruta e equilíbrio com madeira (12 meses em barricas gaulesas). Compotas e frutas vermelhas tomam conta de seu sabor, de boa persistência (88/100, R$ 71, Casa Santa Luzia).

Viña Leyda Single Vineyard Las Brisas 2009 (Leyda). Segundo vinho da vinícola que chegou ao painel final. Mistura no copo aromas de fruta madura e pinceladas de chocolate e especiaria doce, que se fundem num paladar com bela textura (89/100, R$ 75, Grand Cru).

Cartagena 1997 (San Antonio). Milita na ala básica da Casa Marin, uma adega de ponta comandada pela enóloga Maria Luz Marin. Toques de fruta madura típicos da cepa se mesclam com suave café e tons de torrefação num paladar longo (89/100, R$ 92, Vinea).

Amayna 2008 (Leyda-San Antonio). Elaborado pela Viña Garcés Silva, uma das pioneiras desse jovem canto vitivinícola chileno. Estruturado e com boa densidade em boca, mas sem arestas, combina fruta com traços minerais, de alcaçuz e de baunilha (89/100, R$ 95,02, Mistral).

Undurraga Terroir Hunter 2009 (Leyda). Assinado pelo enólogo Rafael Urrejola, passou dez meses em barricas de carvalho francês. O estágio em madeira não afetou a fruta que domina um paladar concentrado, sedoso, longo e delicioso, com boa acidez (91/100, R$ 93, Mr. Man).

Matetic EQ 2008 (San Antonio). Musculares, os Pinot da casa não lembravam muito a cepa. A versão 2008 parece ter mudado de rumo. Frutado, tem paladar vivaz e equilibrado, com taninos finos e um perfil que pende mais para um Borgonha (91/100, R$ 130, Grand Cru).

Viña Leyda Lot 21 2008 (Leyda). Volta a empresa, marca dona de uma bela linha da cepa, da base ao topo, o Lot 21. Fruta limpa e intensa junto a leves elementos balsâmicos dão forma a um paladar com taninos finos e firmes, com boa acidez e persistência (91/100, R$ 161, Grand Cru).

Casa Marin Lo Abarca Hills Vineyard 2006 (San Antonio). Volta também a Casa Marin, com a estrela da adega. Compotas e fruta madura que aparecem embrulhadas num manto de tons tostados de chocolate e suave café, moldam um vinho exuberante (92/100, R$ 225, Vinea).

Foram usados para aferir a avaliação dois exemplares de países de sucesso com a Pinot (que vale a pena também conferir). Um, da Nova Zelândia, o Pegasus Bay 2007 (rico e amplo nas frutas vermelhas bem casadas com madeira, longo, 92/100, R$ 186, Premium). O segundo da França, o Marsennay 2008 do Domaine Trapet, um Borgonha delicado e elegante, mas intenso na fruta, que perdura num final delicioso (92/100, R$ 190, Grand Cru).
A comparação mostra que já há Pinot Noir no Chile com uma atraente relação custo-benefício (a vantagem se dilui à medida que se afastam dos 100 reais e se aproximam dos 200 reais). Fica igualmente claro que os produtores chilenos, com a categoria de sempre, estão encontrando o caminho certo com uma uva arisca e caprichosa, que dá resultados em pouquíssimos cantos do planeta (e parece ter bom futuro por lá).

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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