Prazeres da mesa

Pra quando são os doces?

Por: Prazeres Da Mesa | 18.dec.2017

“Ela é um doce de criatura”. “Te desejo uma vida doce”. “A educação é amarga mas seus frutos são doces”. Até o programa de televisão propõe: que seja isso, que seja aquilo, mas “Que seja doce”. O açúcar está associado, desde sempre, à ideia de vida boa, confortável, gentil, gostosa.

A pergunta “para quando são os doces?” faz parte do hall de expressões cunhadas aqui no Brasil há muito tempo. Nos tempos do império, quando algum nobre se casava, a plebe ficava do lado de fora esperando as sobras dos banquetes. Como os ricos se fartavam das aves e das caças, na hora dos doces já estavam enfastiados e a sobremesa acabava sobrando. Parte dela era, portanto, distribuída aos pobres. Vai daí que a pergunta virou hábito entre aqueles que esperam (e cobram a data marcada do casamento): para quando são os doces?

Não dá para negar: a mesa de doces é a ‘estrela da companhia’ em uma festa de casamento. A protagonista em um cenário que costuma envolver muitos pratos, petiscos, canapés, entradas e tira-gostos. Quem é que já não ficou em uma festa de aniversário só para esperar ‘a hora do bolo’.

Há algumas semanas, estive no casamento da Bruna e do Alexandre. Não o conhecia. Dela, tinha as referências mais “doces”. Menina que sorri quando fala, que abraça com força quando chega e se despede. Da Bruna, me lembrava dos tempos de menininha bem pequena, vestidão e sapatinhos brancos, correndo em uma festa de casamento em que ela esteve quando tinha 4 ou 5 anos. Agora, noiva. E me convidou para o enlace.

Como provavelmente já aconteceu com você que lê a esta coluna, eu também já fui a muitos casamentos. Casamentos de ostentação, casamentos de vitrine, casamentos por conveniência, casamentos por exclusão (quando não há mais nada que os noivos possam fazer na relação, então se casam) e, obviamente, já fui a muitos casamentos por amor.

Os casamentos por amor são os que me fazem derramar lágrimas desde que a mãe da noiva entra pela nave da igreja até a hora de dizer “tchau” aos noivos na festa. Com a Bruna e o Alexandre, eu chorei. Discretamente, mas chorei. E a gente sabe que vai se deixar envolver pelo clima do casamento, sabe que é um casamento por amor, quando não está muito interessado em olhar para os detalhes do vestido, não quer saber se as madrinhas estavam com a mesma cor de roupa, não se apega muito ao tipo de flor usada na igreja. Os olhos vão direto para o rosto das pessoas. Eu chamaria isso de empatia, a identificação com o sentimento do outro. E por que a gente sente isso? Sente porque o amor transborda. E porque transborda, contagia.

Bruna e Alexandre se casaram em uma tarde quente, em São Paulo. Receberam os convidados em um lindo casarão dos anos 40/50 em Pinheiros. Jantar de luxo, cardápio bem escolhido e, então, os doces que eu chamei de docinhos do amor. Dizem os cerimonialistas que organizam casamentos que é preciso pensar em, pelo menos, 7 qualidades de doces para uma boa festa de casamento. Nessa tinha mais do que 7. Fui bem gulosa, experimentei vários (meu cérebro travou e parei de contar para, no dia seguinte, não atirar a balança pela janela).

Havia uma caixinha de chocolate em formato de coração, um minipão de mel com folha rendada açucarada por cima e a última das perdições, um copinho de creme de chocolate amanteigado coroado por uma fisális.

Essa physalis, ou fisális, como a gente já conhece aqui no Brasil, vem da Colômbia. É doce e azeda ao mesmo tempo. O sabor se mistura com o aroma e é herbáceo. Essa fruta-flor já era minha velha conhecida desde os tempos em que eu trabalhava como editora de beleza. Tem fisális em perfumes consagrados como Love, de Chloé; no Fleur Musc for Her, de Narciso Rodrigues; em Cinema, de Yves Saint Laurent e no campeão de público e crítica Eau d’Orange Verte, de Hermès. Então, dou de cara com ela na mesa de doces da Bruna e do Alexandre.

Comi um, comi mais um… O terceiro eu embrulhei como se fosse cristal de Baccarat e, como fazem as tias, levei pra casa. No dia seguinte, acordei pensando na Bruna, como estava linda, como estava feliz, como emocionou a todos nós, seus amigos, como deixou o coração da Mônica (a mãe) apertadinho, como fui tudo esplêndido. E, em homenagem à Bruna, fui preparar meu café da manhã: docinho de fisális.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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