Prazeres da mesa

PREGUIÇA DE COZINHAR

Por: Prazeres Da Mesa | 29.sep.2017

Cozinhar para a família é uma forma de demonstrar amor, não é? É…

Preparar aqueles pratos gostosos que enchem os olhos dos filhos é o máximo, não é? É…

Ir para a cozinha inventar receitas todos os dias é um prazer para nós, mães, não é? Olha… NÃO! Não é.

Hoje, estou bem a fim de falar com (e sobre) as mulheres, que são 93% das protagonistas do forno e do fogão, a despeito de todos os movimentos feministas avassaladores, de acordo com um levantamento da Consumer Watch Lyfestyles Latam, em 15 países da América Latina.

Essa pesquisa mostrou que as mulheres dedicam duas horas diárias à tarefa de cozinhar para a família e, depois, cuidar para que tudo volte aos seus devidos lugares. A gente acha que é muito tempo, mas ainda não tivemos coragem de sair por aí alardeando o nosso pensamento.

Digo “a despeito dos movimentos feministas” porque a cozinha caiu no nosso colo sem termos escolhido cuidar dela e acolhemos a tarefa porque, caso contrário, ninguém a faria.

Vamos ser bem honestas: ir para a cozinha todo santo dia, inventar um prato diferente, fazer isso com amor e carinho depois de um dia de trabalho, de leva-e-traz de filhos e de ocupações com a casa, é uma tremenda chatice.

Cozinhar é bom quando é voluntário. Quando é obrigação é um terror. Não estou dizendo nenhuma novidade.

Nos anos 80, quando eu era repórter da revista Claudia, esse já era um tema de debate. As mulheres estavam cansadas de pilotar fogão. Não queriam mais a obrigação.

Veja você que três décadas se passaram e a gente continua na mesma, e infrutífera, discussão. E ai de quem sair por aí dizendo que recorre, sim, aos congelados, que dá comida pronta para os filhos, que, de vez em quando, vai a um restaurante fast-food justificando que é para fazer a alegria dos filhos mas, de verdade, sabendo que é para se desincumbir da tarefa de preparar mais um almoço, mais um jantar.

Quem tiver peito e coragem para dizer isso tudo em alto e bom som que se prepare, porque uma patrulha montada vai colocar essa infeliz no paredão de fuzilamento e, em alguns segundos, apertar os gatilhos. Essa mãe desnaturada simplesmente não merece o título que tem.

Mas há quem tenha conseguido fazer da cozinha um espaço de acolhimento e construção de memórias. Conheci a mãe da Esther e da Nina há uns 20 anos. Ela não era afeita às panelas, mas como adorava um docinho. E achou nesse prazer um caminho para se conectar com as filhas e a turma de amiguinhos delas. Uma vez por mês, preparava a cozinha para receber uma pequena tropa que passaria a tarde toda fazendo cupcakes. Não era nada muito elaborado, mas era tudo muito colorido. E, ela, mãe-maestrina da orquestra gastronômica infantil, se orgulhava de conduzir os trabalhos.

Reunia 8 ou 10 crianças, no máximo. Preparavam a massa, ficavam ali, na cozinha, esperando os bolinhos assar. E era então que a festa começava. A mãe da Esther e da Nina abria potes e mais potes de onde tirava granulados, cremes coloridos de confeitar, cerejinhas, biscoitos… tudo quanto é confeito que pudesse servir para finalizar dignamente os bolinhos.

Comer, eles até comiam. Mas a barriguinha de crianças de 5 ou 6 anos não aguenta mais do que um, no máááximo dois cupcakes. E, então, saiam correndo para brincar no quintal, deixando um rastro de destruição doce para ser arrumada na cozinha.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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