Prazeres da mesa

PRODUTOS COM HISTÓRIAS PARA CONTAR

Por: Prazeres Da Mesa | 3.mar.2017

*Por Flávia G. Pinho

Surgidos na Itália, rótulos narrativos já são adotados no Brasil

De um lado, as informações de praxe exigidas por lei: valores nutricionais, período de validade, advertências a respeito dos ingredientes. Do outro, a história do produto de fato: quem faz, como e onde é produzido, a filosofia do fabricante. Este é o conceito do rótulo narrativo, ideia que o movimento Slow Food lançou inicialmente na Itália e que começa a conquistar adeptos por aqui. O objetivo é ir além da abordagem técnica e oferecer ao consumidor dados que realmente importam para que se conheça a origem do alimento – segundo o guia internacional que o Slow Food publicou sobre o assunto, em 2015, trata-se de uma “pequena grande revolução no mundo da informação sobre os produtos alimentícios”.

Mais do que fazer referências romanceadas a um mundo poético e supostamente tradicional, prática que ficou conhecida (e gasta) no mundo do marketing como storytelling, o rótulo narrativo tem como objetivo fornecer dados reais – de ordem prática – sobre a procedência do produto. Isso engloba como é feita a seleção da matéria-prima, quais são as técnicas de cultivo e de processamento empregadas, quais os métodos de conservação usados e de que forma o fabricante respeita os preceitos de qualidade defendidos pelo Slow Food.

Como não tem valor legal, uma vez que não substitui a versão obrigatória por lei, o rótulo narrativo funciona como um complemento e constitui uma ótima alternativa para o pequeno produtor que queira se diferenciar no mercado, sem grandes investimentos em marketing e propaganda – as informações adicionais podem ser impressas na própria embalagem ou acessadas por meio de um código QR, que remeta o consumidor diretamente ao site da empresa ou a qualquer outro conteúdo multimídia.

O DoDesign Brasil, escritório especializado no desenvolvimento de embalagens para produtos artesanais, assina uma série de rótulos narrativos já em circulação no país. Segundo a designer Anna Paula Diniz, a comunicação contida na embalagem tem mais poder de convencimento do que se imagina. “Ao contrário das feiras de rua, onde os produtores podem falar com o cliente sobre a qualidade de seus produtos, itens comercializados em supermercados devem apresentar a si mesmos dizendo ‘oi, prove-me, sou especial’”, afirma. “O que os olhos não veem, o paladar não sente.”

Entre os rótulos criados pela DoDesign Brasil estão as embalagens de atomatados orgânicos da Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral (Agreco), de Santa Catarina. Quem adquire os vidros de polpa de tomate, extrato, ketchup e molhos temperados, todos fabricados pela família Lunardi, fica sabendo que a associação é composta apenas de agricultores e agroindústrias de pequeno porte, que cultivam as tradições culinárias dos imigrantes que se estabeleceram no estado.

A Coopercuc, cooperativa baiana que congrega 204 pequenos produtores de doces e geleias à base de umbu, quase todos mulheres, caprichou tanto nos rótulos narrativos que entregou à nutricionista e pesquisadora Neide Rigo, autora do blog Come-se, a tarefa de escrevê-los – ela não economiza nas belas descrições dos sabores da caatinga. A caixinha do mel Tupyguá, produzido por abelhas nativas da reserva indígena de Aracruz, no Espírito Santo, teve sua lateral ocupada por textos que explicam as características dos três ecossistemas da Mata Atlântica onde crescem as floradas  Tabuleiro, Restinga e Capoeira. Segundo o fundador do Slow Food, Carlos Petrini, o objetivo final dos rótulos narrativos é atingir em cheio os hábitos de compra do consumidor: “Não basta escolher com os olhos, é preciso usar também a cabeça”.

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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