Prazeres da mesa

Profissão delicada

Por: Prazeres Da Mesa | 27.jul.2015

Entre a ilusão de só servir vinhos caríssimos e a falta de união entre colegas, os sommeliers perdem espaço (e empregos) no Brasil

O Brasil é um país jovem. Jovem na idade e nos hábitos decorrentes de sua juventude e cultura. O vinho até muito pouco tempo era produto quase restrito às casas familiares de descendentes de europeus. Eu vivi isso. Bem me lembro de como era considerado “chique” sair do bar e ira à mesa do restaurante com um copo long drinque repleto de gelo e uísque em restaurantes finos. E as pessoas ainda iam com o dedo indicador dentro, girando, para misturar o gelo ao uísque… Acredite que é verdade. Década de 1970.

Os tempos mudaram, para melhor e para pior. Hoje há diversos vinhos em oferta e há sommeliers. Porém há também uma camada enorme de consumidores que ganhou dinheiro sem adquirir cultura nem educação. Isso não existia há poucas décadas, mas é realidade hoje. Pessoas esnobes que não olham no rosto de quem lhes servem, conhecem bem menos que o sommelier que está ali e pensam que o mundo do vinho é de barões e marqueses. E que contaminam profissionais que se esquecem de sua realidade.

O vinho não é isso. Salvo nos grandes salões internacionais de hotéis para milionários, o vinho não tem absolutamente nada a ver com isso. Mas essa cultura não chegou ao Brasil ainda. Vejo no Instagram sommeliers competentes e conhecidos postando rótulos famosos e caros. Rótulos que na Europa só se consome em dias especiais, aniversários de 90 anos de um avô e coisas assim, mas são as garrafas que frequentam a timeline deles. Um vinho acessível e de boa qualidade? Muito raro. É o mundo da fantasia.

O vinho precisa muito do sommelier. Do sommelier que esteja preocupado mais com a qualidade de seu serviço e na divulgação de bons vinhos a bons preços e sem preconceito do que daquele que se ilude que o cliente é seu amigo. Não é.

O sommelier também precisa estar atualizado, não parar de estudar nunca e ser solidário com sua classe. Não vi ninguém se manifestando quando o André Cavalcante foi demitido com a justificativa de que custava caro. Custava caro para um grupo de 12 restaurantes Ráscal sob seu comando e que vendia 12 mil garrafas de vinho por mês? Um detalhe: foi sugestão dele o Ráscal  investir no vinho! E ele não tinha participação no resultado disso. E ainda extinguiram a categoria de sommeliers em seus 12 endereços.  Eu não vi ninguém se manifestando.

Sommeliers, sejam unidos e solidários, participem de seu sindicato e lembrem-se: enquanto não tivermos a cultura de uma taça por refeição, não teremos mercado sólido que garanta a sua profissão. Isso está em suas mãos e não é com vinho de bacana que se construirá isso. Tenha certeza.

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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