Prazeres da mesa

Quando a primeira impressão NÃO fica

Por: Prazeres Da Mesa | 25.apr.2016

Estava em Curitiba para um compromisso familiar e aproveitei alguns intervalos para explorar a cidade. Um parque, outro parque, mais um parque…  Urbanóide que sou, bateu uma carência de ruas movimentadas e me pus a andar pelo charmosérrimo Batel, o bairro dos curitibanos moderninhos.

Olhar vagando de um prédio para outro… uma casinha ucraniana que sobrou ali, perdida em meio a alguns restaurantes, e dou de cara com o Al Bába. De verdade, mesmo, o que me chamou à atenção foram os tachos de cobre brilhante, decorados e esculpidos abrigando um “não-sei-quê” dentro deles. Eram muitos desses “não-sei-quê” apertadinhos em uma vitrine ensolarada que me ofuscava os olhos.

 
Entrei e o aroma do local ganhou forma entre os ataifs (panquequinhas enroladas com nozes), as baklawas (aqueles doces com várias camadas de massa phylo – espécie de massa folhada embebida em mel), alguns barazeq (os biscoitinhos de mel e gergelim) e as halwas (espécie de bolo feito com massa de semente de gergelim)… Tudo miudinho, esculturinhas de comer.

Perdida no paraíso, me atrevo. Provo um, provo outro, um terceiro… Eles têm crocância, têm suavidade. E aí chegamos ao ponto, o que me provocou para escrever essa coluna: “poderia me dar um pouco mais desse mel?”. O mel que se despeja por cima dos doces árabes não é mel puro de abelha. É uma calda de mel, mais liquefeita, mais leve. A atendente vasculha a cozinha e me satisfaz.

De volta ao hotel, propagandeio o Al Bába, do libanês Mustafá, para meu companheiro de viagens, meu filho Leonardo. “Vamos lá amanhã”, ele decreta. No dia seguinte, uma boa caminhada pelo parque Tanguá, duas shawarmas (o kebab iraniano) de carne e de faláfel na despretensiosa casa do Vahid e lá vamos nós aos doces, que estão exatamente na porta ao lado.

 

Mas no Al Bába, já não estava mais o Mustafá. As atendentes de ontem ainda não tinham iniciado o turno e – pior pra nós – nada de mel. “Puxa, não tem nem um pouquinho?” Quem come doce árabe sabe que, sem mel, é igual a cachorro-quente sem ketchup e mostarda. “Não”, ela responde seca. Encaramos as baklawas mesmo assim mas, por dentro, senti uma pena danada daquela situação.

Apresentar novidades gastronômicas ao meu filho é uma das minhas delícias na vida e a sisuda atendente me negou essa graça. Talvez tivesse brigado com o namorado, talvez estivesse com dor de dente, talvez seja simplesmente um ser humano de alma encardida. Mas o reflexo da funcionária carrancuda maculou o nosso impacto sobre os doces delicados do Mustafá.

Por isso é que discordo do ditado que diz: a primeira impressão é que fica. Detalhes bobos, que dão alma a um restaurante e nos fazem voltar, precisam ser construídos e reconstruídos todo santo dia.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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