Prazeres da mesa

Quem ama cozinha

Por: Prazeres Da Mesa | 20.jan.2017

Você que me acompanha aqui sabe que sou radialista e a vida no dia-a-dia de uma rádio de notícia não é das mais leves. Houve um tempo em que fui destacada para apresentar jornais entre as 17h e 19h. Fim de tarde, pico de trânsito, balanço das notícias do dia. Aprendi muito, mas sofri também. Minha vocação é para o comentário, para a análise do comportamento humano, para as reportagens na área de saúde e educação, aprecio demais escrever sobre consumo e estilo de vida… É uma vasta cartela de assuntos, mas não inclui as chamadas “hard news”. Vai daí que falar sobre política, polícia, esportes e economia, bem… isso foi um desafio que me consumiu bastante energia e trabalho.

E assim, consumida, voltava para casa no fim da noite mais ou menos como o bagaço de uma laranja; sem um pingo de energia. Mas, quem é mãe ou pai vai me entender, eu não podia me dar ao luxo de chegar em casa e colocar os pés pra cima, ficar olhando para o nada, devaneando para descansar a mente. Mãe e pai, quando voltam ao lar depois do trabalho, começam o terceiro turno do dia e ele não é propriamente leve.

À época, meu filho tinha 8 anos e como toda criança nessa idade, demandava bastante atenção, queria brincar, mostrar o que havia feito depois da escola. Sensível, meu pequeno Leonardo foi se dando conta de que a mãe que ele precisava não era, naquele tempo, a mãe que ele tinha de fato. E, como fazem as crianças com boas antenas para o mundo, foi encontrando brechas, arriscando-se por novos caminhos para chegar àquela mãe cansada no fim do dia. Assim, descobriu uma trilha que passava pela geladeira e pelo fogão.

A cada volta para casa, eu ganhava uma surpresa preparada pelo meu minichef particular. Em um dia, bolinhos de queijo. No outro, salada com lâminas de pera. No terceiro, fatias de peito de peru enroladas com geleia e, para encerrar a semana, pastéis ou quibe assado. Treinamos muito nos anos mais tenros da sua vida, mas essas delícias Leonardo preparava sozinho sob a supervisão da avó que, anos mais tarde, me confidenciou seu pavor ante o manuseio das facas afiadas por aquele menininho inventivo.

Assim, a hora de girar a chave na porta e sentir o cheiro da casa, na expectativa do que o Leo havia preparado para mim, virou o ponto alto e eu dizia a ele: “essa é a melhor hora do meu dia”.

A rotina do hard news ficou para trás, meu filho Leonardo já é um homem, mas continua me fazendo agrados na cozinha. Dia desses, me atrasei. No meio do trânsito, recebi uma mensagem pelo whatsapp: “mãe, avisa quando faltar 5 minutos para você chegar em casa”. Avisei e, que sorte: ao abrir a porta de casa, dou de cara com a mesa posta, um omelete fofinho em um prato enfeitado, iscas de frango sobre salada de folhas no outro. Foi sentar e comer. E, por fim, constatar: aquela plantinha que eu reguei, da qual cuidei e que, desde muito pequena mostrava sua vocação, agora floresce lindamente. Sorte minha ter a chance de ser presenteada com os magníficos frutos.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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