Prazeres da mesa

REGIÕES FORA DO RADAR

Por: Prazeres Da Mesa | 11.jun.2018

jorge luckiO crescente e consistente interesse por vinho que vem se verificando mundo afora desde o início da década de 1990 teve um salto significativo com a entrada de uma leva imensa de novos consumidores, trilha iniciada pelos japoneses, que foi seguida pelos “Tigres Asiáticos”, pelos países do Leste Europeu mais para a frente, notadamente a Rússia e depois a Polônia, até chegar, mais recentemente, aos chineses. A pouca tradição e cultura vinícola que caracteriza esses dois países, fez com que houvesse concentração em torno de rótulos de maior prestígio, em especial os celebrados châteaux de Bordeaux e vinícolas de peso da Borgonha e da Toscana, uma elite na qual se incluem tintos e brancos de algumas outras renomadas regiões europeias.

Com produção limitada – a quantidade de garrafas produzida é consequência direta da área de vinhedos, que é inalterável –, os preços estão explodindo. Para quem não abre mão de tomar um bom vinho do Velho Mundo, que reúne classe e elegância não muito comuns em seus congêneres do Novo Mundo, sem pagar absurdos, o caminho é sair das regiões tradicionais, onde os custos são realmente elevados, e partir para denominações de origem menos conhecidas. Há uma série delas propondo vinhos notáveis, que não foram (ainda) alcançados pela especulação que tomou conta da maioria das regiões mais prestigiadas. Esse foi o tema escolhido para minha apresentação no Mesa Ao Vivo São Paulo de 2017: “Vinhos de regiões fora do radar”.

Há no mercado um sem-número de Denominações de Origem capazes de compor com propriedade esse painel, mas, na seleção final, a definição acabou recaindo sobre França, Itália e Portugal, ficando a Espanha para uma próxima oportunidade. No que se refere aos vinhos, não seria necessário recorrer a rótulos de alta gama para expressar o grau de excelência alcançado pelas regiões escolhidas (há bons vinhos em todas as faixas de preço), contudo a prodigalidade dos organizadores do evento – a equipe de Prazeres da Mesa – e o desprendimento das importadoras que dele participaram, deram–me a liberdade de montar um painel de nível elevado.
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Começando pela França, o país tem muitas opções, mas antes de discorrer sobre elas, vale ressaltar os méritos e o injusto papel secundário da Denominação de Origem (A.O.C – Appellation d’Origine Controlée, em francês) escolhida para representar o país nessa degustação, Gigondas, situada a nordeste da celebrada Châteauneuf-du-Pape, com os quais guarda muita semelhança em termos de tipicidade. Com a vantagem de custarem bem menos. Gigondas, na verdade, tem clima um pouco mais frio, fator positivo por aportar mais frescor, mas perfil de solo parecido, com rica presença de cascalho (“galet”) e predominância da casta grenache. O digno representante da região para esta ocasião, e, talvez, seu produtor de maior peso e tradição, é o Château de Saint Cosme 2012 (distribuído no Brasil pela Winebrands), que tem registros de atividade vinífera desde o ano 109, com tanques de fermentação preservados do período galo-romano. É propriedade da família Barroul desde 1490, hoje comandada por Louis Barroul, da 14a geração. Tem vinhas de até 60 anos de idade em plena produção. Em sua composição entraram 60% de Grenache, 20% de Syrah, 18% de Mourvèdre e 2% de Cinsault, resultando em um conjunto equilibradamente potente, com identidade.

Se for para falar injustiça em termos de A.O.C.s francesas, é possível que a principal seja o sul da França, próxima ao Mediterrâneo. Embora ostentasse o “made in France” em uma época em que isso contava, a região sempre esteve longe de ter o mesmo apelo que Bordeaux, Borgonha e mesmo Rhône, este em particular, por ambos utilizarem as mesmas uvas, basicamente Grenache, Syrah, Mourvèdre, Carignan e Cinsault. É realmente difícil deixar para trás uma imagem ruim. O Languédoc, assim como seu vizinho, o Roussillon, foi durante um bom tempo o principal produtor de terríveis “vins de table”, a mais baixa categoria de vinhos do país, quando o mercado francês era ávido por tintos baratos – nos anos 60, o consumo per capita de vinho na França beirava os 120 litros por habitante por ano (!). Qualidade ali, na época, era tão irrelevante que a legislação francesa até permitia que se misturassem vinhos de outras procedências, o que era feito com fermentados vindos das ex-colônias Argélia e Tunísia, assim como de Sicília e Puglia, na Itália.

A mudança nos hábitos de consumo de vinho entre os franceses, que passaram a beber menos e melhor, fez com que começasse a sobrar bebida. A situação foi se desanuviando a partir de 1979, com melhores definições na legislação. Produtores de fora começaram a se instalar na região atraídos pelo baixo preço das terras, fruto da crise e da vasta área disponível, mas também porque acreditavam ser possível extrair dali bons vinhos a custos bem inferiores ao que se produzia em locais com mais tradição. O antigo cenário, composto de vinhedos na planície, onde o clima é mais quente e o solo mais fértil, mudou, valorizando-se as encostas, mais indicadas para vinhos de qualidade.

Para quem não dispensa vinhos italianos e/ou quer alternativas mais acessíveis que os grandes e caros tintos da Toscana e do Piemonte, opções não faltam, em especial no sul do país. Uma das províncias que tem despontado é Puglia, cuja localização lhe concede o direito de ser apelidada de “o salto da Bota”. Embora fosse conhecida como mera fornecedora de grosseiros vinhos de garrafão ou base para as fábricas de vermute, localizadas no norte do país, já se vislumbrava a existência de potencial qualitativo, o que só foi desenvolvido por volta de 2000, ano em que praticamente se iniciava um sério e consistente movimento de renovação na vitivinicultura pugliese.

Salto qualitativo mesmo ocorreu na Sicília, na década de 1990, quando alguns produtores se dispuseram a mudar a imagem da região, desde sempre associada a vinhos de combate e/ou ao Marsala, um fortificado que no passado chegou a fazer frente a Porto, Jerez e Madeira até entrar em decadência e virar quase que exclusivamente um ingrediente de cozinha.

prazeres da mesa_Ao vivo sp 2017Potencial a ilha tinha de sobra, o que, aliás, os gregos, que ocuparam a região por volta do século V a.C., já haviam reconhecido, tendo sido os responsáveis pela implantação da vitivinicultura no território, em especial em sua faixa sul, onde templos e vestígios daqueles tempos permanecem até hoje como testemunhas da história. A topografia da região, formada por duas cadeias montanhosas e suaves colinas, permitem boa insolação e boa drenagem, além de oferecer opções de altitude – até 600 metros na maior parte da ilha, podendo chegar a mais de 1.000 metros nas encostas do Etna –, possibilitando implantar vinhedos em locais mais apropriados às castas e estilos desejados.

Enquanto a Sicília como um todo prosseguia firme em sua ascensão no cenário vinícola italiano, apoiado, sobretudo, na Nero d’Avola e em uvas internacionais, os vinhos do Etna viviam à sombra. A Nerello Mascalese, a nobre uva local – a Nerello Capuccio tem posição secundária – basicamente se limitavam aos tintos elaborados pelo produtor Palari, na zona de Messina, bem fora dos limites e características da área em torno do vulcão. A região, entretanto, e sob um ângulo bastante positivo, o vinícola, estava em plena erupção. É, seguramente, um dos grandes destaques da Itália na atualidade, desbancando rótulos famosos do país e chamando a atenção dos críticos especializados mundo afora.

Apesar de encostas de vulcão não serem locais dos mais recomendáveis para práticas agrícolas, vinhedos formam a paisagem em torno do Etna há séculos. Os que tiveram tais iniciativas deveriam saber que as razões para implantá-los eram maiores do que os riscos que corriam. Tudo leva a crer que a sucessão de conjunturas adversas – a filoxera, na segunda metade do século XIX, as devastações causadas por erupções, as diversas crises do mercado, começando pelas duas Grandes Guerras, entre outros fatores – tenha relegado o enorme potencial vinícola da região, redescoberto somente há pouco, mais precisamente no início da década passada.

O elemento-chave é a formação montanhosa Nebrodi, que serve de anteparo às influências marítimas que vêm do norte e do leste, formando ao mesmo tempo um vale entre Castiglione di Sicilia e Randazzo, por onde sopra constantemente um vento seco, propício à viticultura. Ao mesmo tempo, a variedade de elevações permite implantar vinhedos com diferentes exposições, em particular ao norte, ideal para que a Nerello Mascalese tenha um ciclo vegetativo mais longo, beneficiando o amadurecimento dos taninos e a manutenção de bons índices de acidez. Para tanto, contribuem ainda a elevada altitude – os vinhedos podem chegar a 1.000 metros –, o que se traduz em dias com grande amplitude térmica. O resultado são vinhos elegantes e equilibrados (também brancos com base na uva Carricante), com boa presença de frutas vermelhas, mineralidade (do solo vulcânico), ótimo frescor e uma trama de taninos firmes e bem integrados. É como se mostra o Etna Planeta Rosso 2012 (importado pela Interfood), utilizado nesta degustação. Uma das mais conhecidas e elogiadas vinícolas sicilianas, com vinhedos e adegas próprias nas melhores zonas vitivinícolas da ilha, a Planeta logo percebeu a ascensão daquela área, implantando ali sua quinta unidade.
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A rica história italiana, aliada à excepcional vocação vitivinícola da quase totalidade de seu território, fez com que o país conseguisse reunir uma seleção de uvas típicas e exclusivas. É um verdadeiro e invejável patrimônio ter uma Nebbiolo, que enseja os fantásticos Barolo e Barbaresco, ou uma Sangiovese, a uva que garante os famosos vinhos da Toscana. O arsenal da Itália, porém, não se limita a essas duas variedades. O país sempre teve muitas outras que viviam de certa forma ofuscadas, mas que, nos últimos tempos vêm conquistando seu espaço. Entre elas, a Aglianico é uma das mais elogiadas quando se pretende eleger as castas italianas do futuro.

Até que estudos recentes descartassem qualquer parentesco, supunha-se que a Aglianico tivesse sido trazida da Grécia em razão da origem de seu nome, uma corruptela italiana de “helênico”. Se não era por aí, não estava longe. É certo que as primeiras parreiras dessa variedade foram plantadas pelos habitantes de um antigo povoado grego que se instalou na Campania, segundo consta, nas proximidades da cidade de Avelino. Ao longo do tempo provou-se que é onde ela se expressa melhor, em particular na zona de Taurasi. Contribuem para isso o solo de variações vulcânicas, com dominante calcário, e a altitude mais elevada, entre 400 metros e 600 metros acima do nível do mar, situação que lhe permite reter mais acidez.

Fundado em 1878 e mantendo a estrutura familiar, Mastroberardino é o nome de maior expressão da Campania e o que tem mais história para contar. Inclusive pelos vinhos de safras antigas que mantém guardado e que servem para comprovar a capacidade de envelhecimento da Aglianico. Nem por isso é uma vinícola pequena: de seus 350 hectares de vinhas (150 ha arrendados) saem cerca de 2,3 milhões de garrafas ao ano. Este Taurasi Radici Riserva 2007 (importado pela Mistral), que passa 30 meses em madeira, entre barris e tonéisprazeres da mesa_Ao vivo sp 2017 grandes, é um vinho complexo, pleno de caráter.

Para completar o painel de rótulos italianos desta apresentação, focando regiões “fora do radar”, nada mais ilustrativo do que um vinho da Sardenha, ilha mais conhecida pelos apelos turísticos, mas que tem uma vitivinicultura atraente e de tradição, em especial com tintos da uva Cannonau, nome que a Grenache assume por lá. Principal referência na produção de vinho de qualidade na Sardenha, a Argiolas foi pioneira no processo de modernização dos vinhos locais, sempre com a filosofia de buscar valorizar as castas autóctones. A vinícola contava com a consultoria de Giacomo Tachis (considerado “o pai” de Sassicaia e outros grandes “supertoscanos”), até ele se aposentar em 2010. Este belo Turriga (importado pela Vinci), seu top de linha, vem de um vinhedo plantado em 1975, tem sido premiado regularmente com os almejados  “tre bicchieri” do Gambero Rosso, inclusive este 2005, escolhido para esta prova.

E ainda tem, lógico, Portugal. Na Terrinha, atualmente, a despeito da supremacia dos vinhos do Douro e da relevância dos alentejanos, estão ganhando espaço rótulos de outras Denominações, fruto de uma importante renovação na mentalidade e no foco dos produtores. O clima renovador chegou também à região dos Vinhos Verdes, no canto noroeste de Portugal, ainda acomodada, no final dos anos 1990, na função de produzir brancos descompromissados, sem grande qualidade, mas também sem incômodos defeitos. Nem fazia muita diferença, na época, que o nome da região estivesse associado ao termo “não maduro”, que caracterizaria o estado em que as uvas são colhidas e que conduz a vinhos pouco alcoólicos para ser consumidos ainda frescos e jovens – tese que os produtores locais atualmente não prazeres da mesa_Ao vivo sp 2017admitem, afirmando que a origem da denominação tem a ver com a paisagem verdejante.

Houve um bom trabalho com as castas tradicionais da região, tendo sido adotado um manejo mais adequado do vinhedo, com mudanças na condução das parreiras, do sistema tradicional de ramada (ou latada, uma espécie de pergolado) para espaldeira com cordão simples, e diminuição no rendimento. Assim, começaram a ganhar destaque variedades regionais como Loureiro, Trajadura e Avesso, por exemplo, que eram desde sempre usadas anonimamente na mescla, nem aparecendo no rótulo. Buscando níveis qualitativos superiores, o cultivo dessas uvas está hoje mais concentrado em determinadas subregiões do Minho, em que o microclima lhes é mais favorável. É o caso da Loureiro em Lima, zona na qual está situada a Quinta do Ameal, um dos melhores produtores da região e que se dedica exclusivamente a essa uva (distribuído pela Qualimpor). É essaprazeres da mesa_Ao vivo sp 2017 vinícola, conduzida organicamente, que produz o Solo 2014, um branco com bom frescor e muita personalidade, o vinho que abriu a série do Mesa Ao Vivo 2017.

Para fechar o painel, outro vinho de Portugal e em um gênero que os portugueses são especialistas, os fortificados. Dentro do propósito de fugir das regiões tradicionais, não caberia colocar um vinho do Porto nem um Moscatel de Setúbal. O escolhido, com toda a pompa que merece, é um Carcavelos, que já marcou época graças aos belos licorosos obtidos pelo processo semelhante ao do vinho do Porto e que, a despeito de sua importância e de fazer parte da história do país, é uma das áreas e rótulos que estão quase desaparecendo em razão da proximidade com Lisboa e da irreversível ampliação da área urbana da capital portuguesa. Este Carcavelos 10 anos (importado pela Adega Alentejana) é uma louvável iniciativa da Câmara de Oeiras, município vizinho a Lisboa e centro desta histórica Denominação de Origem, no sentido de resgatar sua importância no mapa vitivinícola de Portugal. Elaborado com uvas Arinto, Galego Dourado e Ratinho, de vinhedos da ex-Estação Agronômica Nacional, é um vinho untuoso e sedutor, tendo evoluído durante um período médio de 10 anos em barricas de carvalho francês e português. Um grand finale.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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