Prazeres da mesa

Restaurante impróprio para menores

Por: Prazeres Da Mesa | 7.aug.2017

foto ines de castro sem criançasTenho acompanhado a discussão de mães na internet sobre restaurantes que estão impedindo a entrada de crianças. Não tem um segurança na porta que veta a passagem do pequeno, mas há a indicação – em suas peças publicitárias – e fazem saber por meio de seus sites que o ambiente não é recomendável para crianças. E, assim, desencorajam os pais de frequentar o estabelecimento acompanhados dos seus pimpolhos.

As mães estão revoltadas. Loucas da vida. Muito irritadas. Uma delas chegou a escrever: o mundo precisa aceitar a diversidade e entender que ‘conviver em sociedade é aprender a conviver com o outro’. Ótimo que ela tenha escrito isso. Vou pegar a frase e dizer de volta às mães que a tem repetido em bom e ajustado megafone. Vamos fazer esse círculo virtuoso para ver se a gente aprende com ele.

Sim, mães, conviver em sociedade é respeitar e aceitar o outro. E isso inclui vocês e os pais dos seus filhos. Antes que você, mãe ou pai, me aponte seu arsenal, quero registrar que também sou mãe. Minha casa sempre esteve aberta às crianças e não só a área da cozinha e do jardim. Sempre recebi os pequenininhos para festejar os aniversários do meu filho, sem medo de brigadeiro esmagado no chão nem pedaços de coxinha enfiados no sofá. Festa é assim mesmo e isso nunca me apavorou.

Nas férias, também costumava promover tardes gastronômicas, com crianças correndo pela cozinha, me ajudando a assar biscoitos, abrir massa de pastel ou preparar pizza. Vai daí que me justifico antes de sair em defesa dos restaurantes. Gosto da convivência com os pequenininhos, apesar do meu filho já ter passado, faz tempo, de 1,85 metro de altura.

Dito isso tudo, também tenho me irritado muito com as crianças nos restaurantes porque elas ocupam muito mais do que o espaço das mesas a que foram destinadas. A sonoridade dos seus tablets ecoa pelos salões. Seus berros desesperados, quando não querem comer o que lhes é oferecido, irrita quando você não está inserido no contexto.

Mas, vamos ser condescendentes. Fosse só o barulho, eu tentaria abstrair. Mas o problema não se resume a isso. No último fim de semana, fui atropelada por uma garotinha de 5 ou 6 anos que corria pelo restaurante com um copo de refrigerante na mão. Levei um banho de guaraná que não foi nada simpático e, depois do acidente, tive de me contentar com o sorriso amarelo da mãe me dizendo: “desculpa aí… foi mal”. Foi mal, não. Foi péssimo. Foi horrível ter de continuar minha tarde com a roupa úmida porque estava longe de casa.

E os problemas têm extrapolado eventuais acidentes como esses. Conversando com uma chef de cozinha, ela – que tem dois filhos – me disse que estava quase a ponto de proibir crianças no seu restaurante e que não tinha feito isso, ainda, porque lhe faltava coragem. Mas não a vontade.

Explicou que, quando o restaurante está aberto e em funcionamento, a vigilância sanitária proíbe que se use vassouras no salão. Mas os pais não estão nem aí e permitem que as crianças joguem restos de comida no chão. Quem pega? O garçom… que abaixa com um papelzinho, recolhe os restos para que não venha outra pessoa e pise, piorando o que já está ruim.

O movimento das crianças é lindo, é festivo, é feliz. Elas encharcam de alegria os ambientes por onde passam e, dizendo com absoluta sinceridade: o problema não é a criança. O problema é o pai da criança, a mãe da criança.

Aceitar o outro não significa permitir que ele roube um sossego a que você também tem direito (caso ele não tenha percebido porque aí não lhe convém). Pais e mães de crianças indóceis querem que o mundo aceite seus filhos como eles são, mas não cogitam aceitar os outros também como eles são.

Quando a gente só consegue enxergar a intolerância alheia, é aí que a convivência começa a ficar impossível. Quer levar seu filho ao restaurante? Estipule as regras antes de sair de casa. E, uma vez no restaurante, abra seus dois olhos e mantenha os braços ao alcance do petiz para contê-lo se assim for preciso.

Pela má conduta de uns, todas as crianças – e suas famílias – estão tendo de pagar a penitência. Quem perde? Todos nós.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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