Prazeres da mesa

Restaurante não é a cozinha da sua casa

Por: Prazeres Da Mesa | 29.mar.2016

Quem conhece o meu trabalho no rádio, já leu algum dos livros que escrevi ou convive comigo de alguma forma sabe bem que o universo infantil faz parte da minha vida. Eu gosto de crianças, gosto dos ambientes por onde elas circulam, adoro conversar e brincar com elas e amo, mais do que tudo, ser mãe. Vai ver por isso vejo as crianças como merecedoras de grande respeito.

Mas não detentoras de todos os direitos. No restaurante, por exemplo, criança precisa, basicamente, de duas coisas: educação e contenção. Que se não forem oferecidas pelos pais, tchau, tchau… não espere que o garçom se incumba da missão.

Tenho me irritado com gente que trata o restaurante como se fosse a cozinha da própria casa. Grita para os atendentes (como que isso é possível?) ordenando que tragam-lhe uma colher, um potinho, mais açúcar, menos queijo, um novo prato – “ih, quebrou, quer trocar isso aqui?!”. Nada de “por favor”. Nunca um “muito obrigada”. Na boa? Não dá.

Recentemente, eu e meu filho Leonardo – companheiro dos bons nas incursões gastronômicas – estivemos em Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. Eu e ele gostamos dos cafés da manhã fartos e fomos desfrutar de um desses. Mesa escolhida, percebemos um garotinho que rodava feito um helicóptero desgovernado pelo salão, gritando, pedindo, ordenando por mais um pão de queijo, mais um presuntinho… E a mãe, apalermada, atendia aos comandos do pequeno ditador.

Foi chato. Não pela criança, em si, mas pela ausência de um adulto que pudesse conte-la. E por terem nos impingido uma presença tão invasiva e extenuante no momento em que um café e um croissant teriam nos bastado.



Em outro sábado fomos, eu e o Leo, ao Sensi, do chef Manuel Coelho, restaurante na nossa “lista dos bacanas”, que fica no bairro do Campo Belo, em São Paulo.

Pedidos feitos – nhoque assado, massa verde com o melhor molho de tomate de todos os tempos e copos abastecidos; tudo estaria perfeito, não fosse a mulher-gralha do outro lado do salão. Repare, estou falando que a fulana estava a muitos metros de distância de nós e, no entanto, acompanhamos toda a conversa entre ela e os companheiros de mesa e a filha, sentada exatamente ao seu lado.

Foram muitos decibéis acima, em um timbre desafinado, uma falação ininterrupta e gargalhadas estridentes que afetaram não só a mim e ao meu filho, mas aos demais comensais, que apressaram o pagamento das contas.

Por que diabos tem gente assim, tão à vontade, no restaurante? Confortável a ponto de tratar o garçom como “amigão” e o vizinho de mesa como “parceiro”?

Meu bom amigo, o curador de arte Leonel Kaz, que já foi Secretário de Cultura do Rio de Janeiro, certo dia manifestou saudades da cerimônia dos passageiros nos vôos internacionais. Dá licença, Leonel, vou me apropriar da ideia e adapta-la: sinto saudades do tempo em que os restaurantes eram espaços onde a gente ia para comer, sim, mas também se restringia à circulação em torno da própria mesa, tratava o garçom com gentileza e nunca, jamais, em hipótese alguma – nem muitas doses acima – elevava o tom de voz.

Quando a grosseria entra por uma janela, os amantes da boa gastronomia saem pela porta da frente, serventia da casa. E, tendo alguma memória, não voltam mais.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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