Prazeres da mesa

Restaurante para ir com criança?

Por: Prazeres Da Mesa | 14.jul.2016

Eu já li. Você já leu. Todo mundo já se deparou com reportagens que indicam: esse restaurante é ideal para ir com criança. Ah, essa mania que a gente tem de generalizar, não é? Será mesmo que a gente pode colocar todos os menores de 10 anos dentro do mesmo balaio, como se fossem cachorrinhos adestrados ou indóceis?

Nos anos 90, havia em São Paulo um restaurante chamado “Truta Rosa”. Vizinho de casa, intimista, acolhedor, só trutas no cardápio. Costumávamos ir lá AF e DF – antes do filho e depois do filho. Claro, antes do filho eram almoços mais prolongados. Mas demos nosso jeito de ser bom também quando o bebê chegou. Ele ficava na cadeirinha, depois de mamar, barriguinha cheia e tranquilo. Escolhíamos um horário que fosse bom pra ele e bom pra gente.

Conforme o tempo passava, meu filho ia aprendendo que restaurante é lugar de respeito, tem de dividir o espaço com outras pessoas, não pode sair correndo como se fosse o quintal de casa, que para chamar o garçom tem de levantar a mãozinha e aguardar até que ele olhe, tem de dizer por favor e obrigado sempre que for atendido. Eduquei meu filho para desfrutar do que, hoje, aos 17 anos, representa grande prazer na vida dele: a descoberta de novos restaurantes.

Semana passada, circulando pelo bairro do Campo Belo, em São Paulo, nos chamou à atenção uma casa amarela. Entramos e nos deparamos com um bistrô surpreendente; o Bistrô Margot.

Voltamos, dias depois, para o almoço. Tudo transcorria incrivelmente bem até que uma família foi colocada na mesa ao lado da nossa. Duas menininhas – uns 4 e 6 anos – deram de correr de lá pra cá, diante dos olhares aparvalhados da mãe e do pai. As súplicas para que ficassem quietinhas com seus tablets na mão foram em vão e o inevitável aconteceu: um retumbante encontrão com a garçonete que milagrosamente conseguiu equilibrar os copos que trazia.

Na nossa mesa, meu filho reclamou: isso não é lugar de trazer criança. Entendi o que ele tentava dizer. O Margot é um bistrô fofo, decoração rocambolesca e curiosa, mistura antiguidades, peças barrocas, cadeiras aveludadas e um cardápio criativo, preparado pela ex-aluna de Paul Bocuse, a mineira Yasmine Bahiense. Um espaço para 50 e poucas pessoas, onde uma figueira indiana ocupa o centro do salão. Nada disso comporta, mesmo, crianças sem freio e sem limites.

01/12

Mas ante o incômodo do meu filho, propus um flash back. “Lembra-se do Palácio do Sete Ais, em Sintra, Portugal, que tinha até uma harpista tocando e as taças eram de cristal? Você estava lá… Lembra do Daniel, restaurante do chef Daniel Boulud, em Nova York, quando pedimos sobremesas ‘de espuma’? Você também estava lá… E gostou”.

Pois é isso: a natureza infantil parece ter sido feita sob medida para a correria, a bagunça, a gritaria. Mas olhar para os pequenininhos e colocar freio – à custa de bons argumentos e melhores negociações – é para nós, adultos.

Como diziam as nossas avós, um dia, seu filho vai te agradecer.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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